A incerteza contagiosa

Projeção de crescimento econômico deve ser reduzida

O Estado de S.Paulo

01 Julho 2017 | 03h10

O governo deve reduzir para menos de 0,5% a projeção de crescimento econômico neste ano, informou o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, numa reunião com investidores em São Paulo. Antes de anunciar as novas estimativas, a equipe acompanha a evolução dos índices de confiança, afetados pela crise política. Há um efeito da incerteza sobre a expansão da economia, admitiu o ministro, mas nada dramático, ressalvou. Segundo ele, sua hipótese de trabalho inclui a permanência do presidente Michel Temer até o encerramento normal do mandato, no próximo ano. Sem negar totalmente as consequências da insegurança, o ministro reafirmou, no entanto, seu otimismo quanto à recuperação, embora lenta, da atividade econômica. Outras figuras da Fazenda e também do Planejamento procuram igualmente exibir otimismo, embora se acumulem os sinais de inquietação de empresários e consumidores.

Enquanto o presidente reage às acusações e busca apoio no Parlamento, membros da equipe econômica insistem na tese de uma separação entre incerteza política e insegurança na economia. Será possível – esta é a mensagem principal – levar adiante o programa de reformas, apesar das pressões contra o chefe do governo e da agitação na Praça dos Três Poderes. “Não há dúvida de que está havendo um pouquinho de confusão política em Brasília”, admitiu em São Paulo o secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, Fábio Kanczuk. Mas, acrescentou, “não há muito questionamento de qual é a política econômica”.

Em Brasília, num contraponto aparentemente bem preparado, o ministro do Planejamento, Dyogo Oliveira, rejeitou a ideia de uma paralisação da pauta no Congresso. “Tudo terá seu momento de discussão”, disse o ministro. Pode ser, mas o risco foi apontado pelo presidente Michel Temer, ao descrever o fatiamento das denúncias, pelo procurador-geral Rodrigo Janot, como tentativa de “parar o País, parar o Congresso num ato político”. Pode haver alguma retórica na reação de Temer, mas também há um inegável toque de realismo em seu discurso.

O risco, no entanto, é muito mais amplo. Longe dos centros de poder, consumidores e dirigentes de empresas dão sinais de intranquilidade. A Fundação Getúlio Vargas (FGV) divulgou há dias sua pesquisa mensal sobre o Índice de Confiança da Indústria. Em junho, o indicador caiu 2,8 pontos e chegou a 89,5, o nível mais baixo desde fevereiro (87,8). Houve piora tanto das expectativas quanto da avaliação do quadro atual. Diminuiu o número de empresas com previsão de aumento de pessoal e aumentou o daquelas com perspectiva de demissões. A maior parte manteve a previsão de continuidade do quadro de empregados. Além disso, o uso da capacidade instalada diminuiu 0,5 ponto porcentual, para 74,2%, o menor nível desde dezembro, na série com ajuste sazonal.

A confiança dos dirigentes da indústria de transformação foi afetada pela crise política iniciada em maio, comentou a coordenadora da sondagem, Tabi Thuler Santos. A mesma explicação havia sido apresentada pela coordenadora da pesquisa sobre o Índice de Confiança do Consumidor, igualmente em queda. A Confederação Nacional da Indústria havia registrado a mesma tendência em suas sondagens sobre os dirigentes de empresas e consumidores. Em todos os casos, a explicação aponta para a piora do cenário político, depois do vazamento, no mês anterior, da delação dos irmãos Batista, do Grupo J&F, contra o presidente da República.

No mercado financeiro, o quadro voltou à aparente normalidade, depois do primeiro impacto do vazamento. Membros da equipe econômica têm chamado a atenção para esse dado, na tentativa de mostrar a separação entre incerteza política e incerteza econômica. Mas esse quadro aparentemente tranquilo desaparece, quando se investiga o humor em outro universo – o de quem vai às compras, dirige empresas e oferece empregos. A diferença entre crescimento e recessão depende das decisões tomadas nesse mundo mais prosaico.

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