A incerteza política e o câmbio

O País derrapa na recuperação econômica e os políticos ignoram desafios urgentes

O Estado de S.Paulo

16 Junho 2018 | 03h00

Enquanto o Brasil derrapa na recuperação econômica e os políticos ignoram os desafios mais urgentes, os juros sobem nos Estados Unidos, os conflitos comerciais se aguçam e o quadro internacional se torna menos favorável aos países emergentes. Os juros básicos americanos, elevados na quarta-feira passada para a faixa de 1,75% a 2% ao ano, ainda poderão subir mais duas vezes até dezembro, segundo especialistas do setor financeiro. A cada novo aumento o real será pressionado e os negócios serão afetados pela instabilidade cambial e pela incerteza econômica. Ao mesmo tempo, a alta do dólar tenderá a jogar para cima os preços em reais, alimentando a inflação e complicando o dia a dia das famílias brasileiras. Para limitar as oscilações do câmbio o Banco Central (BC) oferecerá dólares ao mercado, por meio de operações de swap cambial. Fora do BC, pouca gente em Brasília mostrará alguma preocupação com a mudança do quadro externo e seus efeitos para a vida brasileira. Quem se importa com essas coisas, especialmente em ano de eleições? 

Anunciada a nova alta dos juros básicos nos Estados Unidos, o dólar voltou a subir no Brasil, encostou em R$ 3,74 e recuou para R$ 3,71 depois de mais uma intervenção do BC. Na quinta-feira aumentou de novo e bateu em R$ 3,77, antes de nova intervenção. A autoridade monetária continua oferecendo bilhões de dólares, por meio de operações de swap, na tentativa de limitar as oscilações cambiais. Não se trata de tabelar a taxa cambial, mas apenas de evitar grandes solavancos no mercado. 

Além de oferecer dólares, o BC também poderá elevar os juros básicos, na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), mas isso dependerá, segundo tem repetido o presidente da instituição, Ilan Goldfajn, de um novo exame das perspectivas de inflação. Essa reavaliação certamente incluirá novas hipóteses sobre o câmbio e seus efeitos na formação de preços em reais. A nova decisão do Copom deverá ser anunciada no fim da tarde do próximo dia 20. 

O aperto de juros nos Estados Unidos tem afetado o câmbio em todo o mundo, mas de forma especialmente preocupante no caso das economias emergentes. O governo da Argentina, com alta dependência de empréstimos para fechar suas contas e pressionado pela escassez de reservas cambiais, logo capitulou e pediu ajuda ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Turquia, Índia e Brasil também são países considerados vulneráveis à instabilidade cambial. A vulnerabilidade varia de um caso para outro e é especialmente grave quando os fundamentos econômicos são frágeis. 

Inflação moderada, contas externas em bom estado e reservas cambiais de cerca de US$ 380 bilhões são pontos a favor do Brasil, mas suas contas fiscais são muito frágeis, com déficit primário elevado e sem perspectiva de eliminação até 2024 ou 2025. Enquanto isso, crescerá a dívida pública, já muito mais pesada que a dívida média dos emergentes. As contas primárias (sem juros) poderiam equilibrar-se em 2021 ou 2022, mas para isso seria preciso avançar no programa de reformas, com prioridade para a da Previdência. 

Orçamento administrável e aprovação de reformas dependem, no entanto, de aprovação parlamentar. Dependem, portanto, de comprometimento de boa parte dos congressistas com a saúde financeira do Estado. Condições como essas têm sido vistas muito raramente no Brasil. Num quadro político diferente o País seria bem menos vulnerável à piora das condições internacionais. 

Economistas do mercado têm reduzido as projeções do crescimento econômico brasileiro e elevado as estimativas de inflação. Têm, além disso, mostrado maior pessimismo quanto à evolução das contas públicas neste ano e no próximo, quando um novo presidente deverá ocupar a sala principal do Palácio do Planalto. Os danos causados pela crise no transporte rodoviário são incluídos nessas contas, mas a política é o fator principal de insegurança. O quadro seria pior se o Banco Central Europeu anunciasse um aperto próximo de sua política. Mas os sinais são de juros muito baixos na zona do euro ainda por muito tempo. Pelo menos essa é uma boa notícia. 

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