A incerteza política e o PIB

Mesmo derrapando, a economia brasileira avançou no primeiro trimestre, mas só os mais otimistas ainda apostam num crescimento próximo de 2,5% em 2018

O Estado de S.Paulo

02 Junho 2018 | 03h00

Mesmo derrapando, a economia brasileira avançou no primeiro trimestre, mas só os mais otimistas ainda apostam num crescimento próximo de 2,5% em 2018. Falta avaliar os efeitos da paralisação do transporte rodoviário. Além disso, setores da indústria já vinham perdendo impulso, antes da ação dos caminhoneiros, por causa da incerteza política. Mas, apesar do ambiente desfavorável, entre janeiro e março o Produto Interno Bruto (PIB) foi 0,4% maior que nos três meses finais do ano passado. Foi um resultado surpreendente para quem formou expectativa com base em estimativas publicadas há poucos dias. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado uma prévia do PIB, havia apontado um recuo de 0,13% no trimestre. Segundo o Monitor do PIB elaborado pela Fundação Getúlio Vargas, teria havido expansão de 0,3%, número inferior, mas muito próximo do oficial. 

Dados de longo prazo também são positivos. O primeiro balanço de 2018 mostra um valor 1,2% superior ao do trimestre inicial do ano passado. Nos 12 meses terminados em março, o crescimento acumulado foi 1,3% maior que o calculado para os 12 meses imediatamente anteriores. Entre janeiro e dezembro do ano passado o PIB havia sido 1% maior que no último ano da recessão.

Quem der prioridade aos aspectos mais animadores poderá olhar também para a composição da demanda, isto é, para a aplicação da riqueza produzida no trimestre inicial de 2018.

O investimento produtivo cresceu 0,6% em relação ao realizado entre outubro e dezembro do ano passado e foi 3,5% maior que o de janeiro a março de 2017. Além disso, correspondeu a 16% do PIB, uma proporção ainda muito baixa, mas superior, em todo caso, ao número de um ano antes (15,5%). O consumo das famílias foi 0,5% maior que nos últimos três meses do ano passado e superou por 2,8% o de igual período de 2017. O consumo do governo recuou nas duas comparações – diminuição de 0,4% na primeira e de 0,8% na segunda. É um sinal do esforço realizado para o acerto das contas públicas.

Mas é preciso olhar para outros dados, nem sempre tão estimulantes, para uma avaliação realista. A produção da indústria geral cresceu 0,1% entre o fim de 2017 e o primeiro trimestre de 2018. Foi um resultado pífio, mas ainda positivo, dirão os otimistas. O dado fica bem mais feio quando se examinam detalhes setoriais.

A produção da indústria extrativa aumentou 0,6%, mas a indústria de transformação produziu 0,4% menos que no trimestre imediatamente anterior. É um recuo especialmente preocupante. O segmento de transformação – fábricas de automóveis, tecidos, vestuário, eletrodomésticos, material elétrico, máquinas e equipamentos, etc. – tem um grande poder de tração sobre o conjunto da economia e, além disso, gera boa parte dos melhores empregos, aqueles com melhores salários, carteira assinada e maior conjunto de benefícios para os trabalhadores. 

Nem todos os números são ruins nessa área. A indústria de transformação produziu 4% mais que no primeiro trimestre de 2017 e acumulou expansão de 2,8% em 12 meses. Mas a perda de vigor na passagem do trimestre final de 2017 para o primeiro deste ano é um sinal de alerta nada desprezível. 

O desempenho da agropecuária continua satisfatório. A produção do setor foi 2,8% menor que a de um ano antes, mas o trimestre inicial de 2017 foi notavelmente positivo. A safra de grãos desta temporada deve ser a segunda maior da história. Em todo caso, o resultado setorial de janeiro a março foi 1,4% superior ao do período de outubro a dezembro.

A inflação baixa deu espaço à redução de juros no último ano e favoreceu o consumo e a produção. Mas a incerteza interna, agravada pela piora do cenário externo, tem afetado empresários e consumidores. Não se sabe, ainda, como a crise dos transportes afetará a evolução dos preços. Mas já se sabe como afetou as contas públicas, impondo custos ao Tesouro, complicando a política fiscal e tornando mais confuso o cenário brasiliense. É um momento crucial para o Executivo mostrar propósitos claros, firmeza e autoridade. A alternativa é o retrocesso.

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