A incógnita Dilma

A História revela que nada é tão rodeado de incerteza quanto o resultado de uma eleição direta. Políticos experientes ensinam: mineração e eleição, somente após a apuração.

ALMIR PAZZIANOTTO PINTO, O Estado de S.Paulo

15 Maio 2010 | 00h00

Quando Franco Montoro disputou o governo do Estado de São Paulo, em 1982, com o governo militar declinante, era fácil prever a vitória esmagadora do PMDB. Em 1974, entretanto, no apogeu do regime autoritário, não se imaginava que o fraco MDB, com candidatos anônimos, elegeria 16 senadores, impondo acachapante derrota à Arena.

Em passado mais distante, após a queda da ditadura Vargas, o malogro do brigadeiro Eduardo Gomes nas eleições de 2 de dezembro de 1945 surpreendeu o País. O general Eurico Dutra, ministro da Guerra durante o Estado Novo, fora lançado pelo Partido Social Democrático (PSD), contra o candidato da União Democrática Nacional (UDN).

Em desfavor de Dutra pesava o fato de ser fechado, de poucas palavras, impopular em meio ao povo. O brigadeiro, porém, era um dos heroicos tenentes do Forte de Copacabana, na epopeia de 1922. Vinha respaldado pelo apoio de todos os que se aliaram na luta contra a permanência de Getúlio Vargas no poder, após 15 anos de governo. Dotado de simpatia, embora de temperamento austero, cativava o eleitorado feminino com o bordão "vote no brigadeiro, é bonito e é solteiro".

Os comícios de Eurico Dutra eram vazios. Já os da UDN sinalizavam a vitória, com a agitação de milhares de lenços brancos. Jovens, estudantes e intelectuais apoiavam Eduardo Gomes; os velhos coronéis conservadores, formadores da coluna dorsal do PSD, desiludiam-se da vitória de Dutra.

Sentindo o odor da derrota, dois aliados de Dutra, Amaral Peixoto e Hugo Borghi, partiram ao encontro de Getúlio Vargas, proscrito na longínqua estância de São Borja (RS) desde 29 de outubro. Após horas de insistência, convenceram-no de que, não obstante se sentisse atraiçoado por Dutra, chefe da rebelião que o destronara da Presidência, tinha o dever de apoiá-lo. Argumentaram que a vitória da UDN abriria as portas à apuração de acusações de crimes cometidos durante o Estado Novo e daria início à perseguição de membros da família Vargas, ao fim do trabalhismo e à inevitável tentativa de demolição das recentes conquistas do operariado.

Vargas admitiu, então, escrever carta de apoio ao inimigo. O documento, redigido em poucas linhas, foi lido por Hugo Borghi no último comício, realizado em 27 de novembro no Rio de Janeiro. Divulgado amplamente pela imprensa, tornou-se conhecido, em todo o Brasil, como "ele disse".

Cinco dias depois, em 2 de dezembro, as urnas receberam 3,25 milhões de votos para Eurico Dutra (55% do total) e cerca de 2 milhões para Eduardo Gomes. Em menos de uma semana Vargas gravou a marca da excepcional popularidade, mudou o rumo das eleições e alterou a História do Brasil.

Dilma Rousseff jamais disputou cargo eletivo. Nem simples cadeira de vereador em município do interior. Foi retirada do anonimato pelo presidente Lula, que lhe entregou a Casa Civil, um dos três Ministérios mais importantes da República. Pouco se conhece da sua vida pregressa, além das informações que circulam pela internet. Carente de nomes do PT, depois do assassinato do prefeito de Santo André Celso Daniel, dos acontecimentos nebulosos atribuídos a Antônio Palocci e de ver José Dirceu cassado pela Câmara dos Deputados, o presidente Lula optou por jogada de elevado risco, ao procurar converter dona Dilma em candidata previamente vitoriosa. Cristã-nova nas fileiras do PT, por analogia à hierarquia militar dona Dilma não seria mais do que primeiro-sargento.

Hábil articulador, o ex-metalúrgico atraiu o PMDB com a oferta da Vice-Presidência. Ao PDT concedeu o Ministério do Trabalho. À Força Sindical - rival histórica da CUT - conferiu prestígio e crédito "nunca antes vistos neste país". Busca, agora (quem poderia imaginar?), atrair o PTB de Roberto Jefferson e o PP de Paulo Maluf. Para evitar riscos isolou Ciro Gomes, após seduzi-lo com impossível candidatura ao governo de São Paulo.

Resta saber se os pesados investimentos terão retorno. A interrogação ganha força a partir do momento em que dona Dilma, ausente do Ministério, se esforça para alçar voo, obrigada a participar de eventos públicos e a dar entrevistas a jornais, revistas, emissoras de rádio e TV.

Em artigo anterior, observando a calmaria reinante no PSDB, considerei inevitável a eleição de dona Dilma. Deixei registrado, entretanto, que o prognóstico poderia ser invalidado pela ocorrência de fato capaz de neutralizar o capital político acumulado pelo presidente. Hoje, reconhecidas as diferenças entre personagens, situações e circunstâncias, a razão determinante de nova análise do cenário eleitoral chama-se Dilma Rousseff.

A bipolaridade do pleito desfavorece a representante do Planalto e do PT, cujo atestado de pobreza política lhe foi passado pelo presidente, que, segundo se propala, lhe recomendou evitar aparições públicas e permanecer algum tempo submersa em aulas de construção de frases, articulação de ideias, objetividade de exposição e de como se postar diante das câmeras de televisão.

Como a excelente candidata Marina Silva não dispõe de partido nem de recursos para enfrentar as despesas exigidas por disputa de caráter nacional, e o imprevisível Ciro Gomes foi privado da chance de concorrer à Presidência, a eleição caminha, de maneira inexorável, para o confronto da jejuna dona Dilma com o experiente e frio José Serra.

Resta aguardar e ver se Lula conseguirá, em cinco meses, repetir o prodígio realizado por Getúlio Vargas em cinco dias.

ADVOGADO, FOI MINISTRO DO TRABALHO E PRESIDENTE DO TRIBUNAL SUPERIOR DO TRABALHO

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