A indústria do crime

Com a ação desimpedida de uma extensa rede de crime organizado, o roubo e o furto de carros no Estado de São Paulo representam hoje uma florescente indústria, movimentando R$ 500 milhões por ano, muito mais que fábricas que trabalham dentro da lei e lutam para sobreviver. Centenas de automóveis são diariamente "puxados" - 120 por dia só na capital - para venda em países vizinhos ou no mercado interno, com os números dos chassis adulterados ou, como já se tornou mais comum, para a subtração de peças e partes, levadas para desmanches, os chamados "buracos". Dali vão parar nas mãos de atravessadores, que as revendem para "atacadões", fornecedores de lojas receptadoras, algumas delas acima de qualquer suspeita. Com frequência cada vez maior, os roubos são acompanhados de violência, e impressiona constatar que 25% dos latrocínios no Estado estão ligados ao roubo de carros. Não se trata, portanto, apenas de um crime contra o patrimônio, mas de uma ameaça à segurança e à vida dos cidadãos.

O Estado de S.Paulo

25 Março 2012 | 03h09

Segundo a Divisão de Investigações sobre Furtos e Roubos de Veículos e Cargas (Divecar) da Polícia Civil, 82 "buracos" foram estourados no ano passado. É muito pouco em face da extensão desse tipo de crime, que deu origem, só no primeiro bimestre deste ano, a 7.280 boletins de ocorrência em delegacias de polícia da capital, um aumento de 14%, em comparação com igual período de 2011. Mantida essa média, estima-se que 43.600 veículos serão roubados em São Paulo este ano.

São inúmeros na periferia da capital, na região metropolitana e no interior do Estado os galpões onde veículos roubados são guardados para clonagem de placas ou para o desmanche. Muitos são conhecidos e funcionam há anos, sem serem perturbados pela ação policial. E não há notícia de interdição de "atacadões" nem de empresas de autopeças que atuam no mercado paralelo.

A sofisticação desse tipo de crime é um desafio para o Centro Integrado de Inteligência (Ciisp) da Polícia paulista. No lugar de "ladrões de confiança", que faziam o desmanche e eram diretamente ligados ao comércio ilegal de autopeças, hoje existem quadrilhas organizadas em células, que distribuem as tarefas criminosas, permitindo que o agente da cadeia do crime conheça apenas um de seus elos. Os ladrões sabem em que "buraco" entregar o produto do furto e receber o pagamento. O desmanche usa um atravessador, desconhecendo qual será o estabelecimento receptador final.

As autoridades policiais, contudo, não ignoram os lugares em que os roubos e furtos de automóveis são quase rotineiros. Os locais preferidos dos ladrões são as vizinhanças de hospitais, supermercados e shopping centers, que praticamente não são policiados. Na cidade de São Paulo, é a imprensa que tem se encarregado de informar quais as ruas, avenidas e trechos de rodovias, em todas as regiões da cidade, mais sujeitos a roubos de carros, especialmente à noite.

O comércio ilegal de autopeças, além de estimular o furto e roubo de veículos, prejudica as empresas que pagam impostos e trabalham licitamente. Os fabricantes também são afetados com a queda de vendas de peças de reposição, substituídas por outras vendidas a preços mais baixos, mas nem sempre em condições ideais de uso.

Mesmo se saírem ilesos de assaltos, os proprietários de carros podem sofrer perdas às vezes ruinosas, considerando que apenas 20% deles, em todo o País, têm seguro contra roubo ou furto. Ao fim e ao cabo, todos perdem dinheiro, uma vez que, com o crescimento desse tipo de crime, as seguradoras, para se resguardarem, tendem a aumentar os prêmios para esse tipo de seguro.

A situação chegou a um ponto intolerável e o que se espera é que a Secretaria da Segurança Pública do Estado articule uma política concentrada contra a ação de quadrilhas que atuam no roubo e furto de veículos, com apoio, se necessário, da Polícia Federal e da Interpol, já que há conexão com redes criminosas internacionais. Se é impossível acabar com esse tipo de crime, ele tem de ser fortemente reduzido.

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