A indústria faz a diferença

Vira e mexe, defrontamo-nos com a tese de que "o Brasil está se desindustrializando" ou corre grandes riscos nesse sentido.

José Serra, O Estado de S.Paulo

26 Maio 2011 | 00h00

É bom esclarecer que o termo "desindustrialização" não significa declínio absoluto da produção do setor. Nem mesmo os casos notórios de perda de vitalidade industrial, como os Estados Unidos nos últimos 25 anos, acusam queda absoluta do produto manufatureiro. Em geral, desindustrialização tem que ver com a perda do poder da indústria de transformação para comandar o crescimento da economia.

A queda da fatia da indústria no produto é tradicional nas economias ricas. A partir de um certo estágio do desenvolvimento, a indústria vai mesmo cedendo participação ao setor de serviços. É diferente, porém, quando o recuo relativo da indústria manufatureira ocorre antes de a economia alcançar esse estágio. Nesse caso, seu menor dinamismo não é compensado pela expansão do setor de serviços, ainda influenciado por atividades de menor qualidade.

Isso define, como ocorre no Brasil, uma desindustrialização prematura. Note-se que nas economias em desenvolvimento mais dinâmicas (Índia, China e outras asiáticas), onde o PIB cresce rapidamente, o setor industrial tem estado sempre à frente. Já no grupo de países em desenvolvimento de menor crescimento, que o Brasil integra, a indústria vai ficando para trás. Diferentemente do que aconteceu entre 1930 e1980, houve queda da participação do setor no PIB de 13 pontos porcentuais entre 1985 e 2008 (dados da CNI). Desde 2004 até 2010, a fatia da indústria de transformação no produto caiu de 19,4% para 15,8%. No mesmo período, a taxa de crescimento industrial atingiu metade do ritmo do PIB.

Para compreender como isso começou é preciso levar em conta os estragos da superinflação que assolou a economia brasileira durante 15 anos, desde 1980, além dos efeitos a curto prazo da estabilização alcançada pelo Plano Real, em 1994, e solidificada nos anos seguintes, inclusive pela sobrevalorização do real, até 1998.

Desde a década passada a conjuntura externa mudou de sinal, tornando-se muito favorável ao comércio e às finanças do País. Mas isso não foi devidamente aproveitado como alavanca de desenvolvimento. Ao contrário, foram sendo criadas, ou consolidadas, condições negativas para a indústria: a maior taxa de juros reais do mundo, taxa de câmbio megavalorizada, a maior carga tributária entre os países emergentes, engessamento fiscal e acachapante taxa de investimento governamental.

Essa taxa reduzida explica o colapso da infraestrutura que deveria dar suporte à atividade produtiva em expansão. Além disso, o capital privado não é atraído a investir nessa área por causa da incapacidade da esfera federal para promover parcerias e da taxa de juros sideral. Trocando em miúdos: eleva-se fortemente o custo Brasil.

Com respeito à taxa de câmbio, isto é, à relação de troca entre o real e moedas estrangeiras, nunca antes neste país se atingiu um nível de apreciação tão escandaloso, não obstante ser considerado pelo atual governo como o último bombom da caixa de terapias anti-inflacionárias. O fato é que a política econômica lulista deixou avançar demais, de forma desnecessária, a apreciação do real. Agora, paga-se o preço.

Às questões anteriores adiciona-se o problema da tributação, que não favorece a agregação de valor e pune os investimentos e a exportação.

A indústria brasileira acabou se tornando, assim, refém de uma tesoura. De um lado, a lâmina da concorrência internacional, deteriorando a capacidade competitiva de nossas exportações de manufaturados. Do outro, a lâmina da concorrência dos importados, cada vez mais baratos. Como a China mantém seu câmbio fortemente desvalorizado e o Brasil faz o contrário, os produtos chineses podem apresentar preços internacionais em torno de 50% menores que os nossos.

Um dos principais efeitos da tesoura é o crescente déficit comercial de manufaturados: em 2005 o saldo comercial era positivo, de U$ 31 bilhões; em 2010 o déficit foi de U$ 35 bilhões!

A cada vez que importamos, por exemplo, uma válvula industrial, antes produzida no Brasil, estamos destruindo a capacidade empresarial e exportando bons empregos para o Sudeste Asiático. Aliás, a ocupação no segmento que produz essas válvulas caiu de 13 mil para 7 mil pessoas entre 2008 e 2011. No segmento de ferramentas de primeira linha, as importações triplicaram em três anos, com o desemprego de 17 mil pessoas. Porque somos ineficientes? Não. É o câmbio, estúpido!

A insensatez é tamanha que o Brasil, hoje, exporta celulose para a China e começa a importar papel de lá. Plantas de indústria do alumínio estão indo para o exterior processar a matéria-prima daqui extraída. A combinação do câmbio com a tributação está tornando inviável a indústria brasileira de metais.

Nossa renda per capita é quatro ou cinco vezes menor que a dos países ricos, temos índices imensos de pobreza e uma grande massa de pessoas desempregadas ou subempregadas. Enfrentar esse desafio implicaria dobrar a renda média dos brasileiros em 15 anos, com um crescimento superior a 5% ao ano.

Tal resultado depende de uma indústria dinâmica. Do contrário, não haverá aumento suficiente de bons empregos. Desperdiçaremos capacidade empresarial e dispensaremos os efeitos multiplicadores e aceleradores que o setor exerce sobre os outros segmentos da economia. A indústria é a via principal de penetração e difusão do progresso técnico na economia. É um setor em que a produtividade depende do seu próprio crescimento, num círculo virtuoso.

Intuitivamente, o Brasil percebeu essas coisas durante uns 50 anos do século passado. Agora precisamos reaprendê-las, num mundo mais desafiador, num país bem mais complexo. Mas vale a pena: a indústria pode fazer, sim, a diferença.

EX-PREFEITO E EX-GOVERNADOR DE SÃO PAULO

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