A indústria sem perspectiva

A presidente Dilma Rousseff completará quatro anos de mandato com a produção industrial estagnada, com o setor em má situação financeira e com escassa perspectiva de crescimento a curto prazo, segundo as últimas pesquisas e projeções da Confederação Nacional da Indústria (CNI). A confiança dos empresários continua muito baixa e a retomada do investimento está cada vez mais distante, de acordo com a sondagem divulgada pela entidade nessa quinta-feira.

O Estado de S.Paulo

27 Abril 2014 | 02h07

Em outro informe, divulgado na primeira quinzena, a CNI havia atualizado suas projeções para este ano. O crescimento previsto para o Produto Interno Bruto (PIB) foi reduzido de 2,1% para 1,8%. A expansão estimada para o produto industrial caiu de 2% para 1,7%. No caso da indústria de transformação o cenário é pior, com expectativa de avanço de apenas 1,5%. As projeções anteriores haviam sido publicadas em dezembro. Em 2013 o crescimento geral da indústria ficou em 1,3%. O do segmento de transformação, em 1,9%. Este ano, tudo indica, fechará um quatriênio desastroso para a atividade industrial, um dos piores desde o fim da 2.ª Guerra.

Na sondagem recém-publicada, a consulta a dirigentes de 1.858 empresas pequenas, médias e grandes revelou enorme insatisfação com a margem de lucro operacional e com a posição financeira das companhias no primeiro trimestre. A avaliação, nos dois casos, foi a pior desde o segundo trimestre de 2009. Nessa série de sondagens, as respostas são convertidas em indicadores dispostos numa escala de zero a 100. Valores acima de 50 indicam resultados positivos (como aumento da produção) ou expectativa de melhora.

O indicador da margem de lucro operacional foi 42. O de acesso ao crédito foi 39,2, também o menor desde o período de abril a junho de 2009. Esta é, com certeza, mais uma consequência da alta de juros iniciada há um ano, do maior cuidado dos bancos na concessão de empréstimos e, muito provavelmente, da mudança das condições no mercado financeiro internacional. A sondagem também apontou redução da atividade e do número de empregados em março e ligeiro aumento da capacidade ociosa.

Os números também apontam uma expectativa de maior demanda nos próximos meses, mas com otimismo ligeiramente menor que o do mês anterior (o indicador caiu de 57,9 em março para 56,4 em abril). Uma sondagem da Fundação Getúlio Vargas divulgada no mesmo dia apontou um movimento contrário - um pouco mais de confiança em abril do que no mês anterior. Mas o número permaneceu inferior à média dos últimos 60 meses. Foi o 14.º mês consecutivo com o indicador abaixo dessa média.

A pesquisa da CNI incluiu perguntas sobre os principais problemas enfrentados no trimestre pelas empresas. A carga tributária continuou em primeiro lugar, apontada por 58,3% dos consultados. Esse item havia aparecido em 55,6% das respostas na sondagem anterior.

Competição acirrada, alto custo das matérias-primas, falta de demanda e falta de trabalhadores qualificados apareceram nas posições seguintes. Em sexto lugar apareceram os juros altos, mencionados por 24,3% dos consultados (20,9% na sondagem anterior).

Há pouca variação na lista dos principais problemas e a tributação sempre aparece em posição destacada. Também a resposta do governo às queixas da indústria pouco varia. Uma reforma tributária ampla continua fora dos planos.

Para enfrentar de fato o desafio, o governo federal teria de negociar com 27 governadores. Precisaria inventar meios de articular interesses muito diferentes. A conciliação é possível, mas cada governador, apoiado por uma bancada estadual ou regional, defenderá sua posição como se os interesses de seu Estado e os da economia nacional fossem radicalmente opostos. Reformas amplas são tarefas para estadistas. Na falta de políticos com essa qualificação, ocorrerão apenas mudanças, muito modestas - como as desonerações setoriais e até provisórias. Tem sido essa, há muitos anos, a situação do Brasil, e só com muito otimismo se pode esperar mudança em prazo razoável.

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