A inflação e a loteria dos juros

Uma inflação de 0,78% ao mês é assustadora em qualquer país mais ou menos normal, mas no Brasil, estranhamente, houve quem visse um bom sinal nesse número. Essa é uma das peculiaridades - ou perversões - mais interessantes do mercado financeiro. O estado do mundo é avaliado de acordo com as projeções correntes. Se as projeções indicarem a criação de 100 mil empregos nos Estados Unidos e o dado oficial for 98 mil, os preços das ações cairão como se a maior economia do mundo estivesse afundando num atoleiro de desemprego. Se a mediana da inflação projetada for 1%, qualquer porcentagem mais baixa será recebida como boa notícia. Esse pitoresco ritual foi celebrado mais uma vez na quinta-feira, quando foi divulgado o IPCA-15 de abril, uma espécie de prévia do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado oficialmente como referência para a política anti-inflacionária.

O Estado de S.Paulo

20 Abril 2014 | 02h10

Se os dirigentes do Banco Central (BC) raciocinarem como os investidores e operadores do mercado financeiro, a "boa notícia" tornará mais provável a interrupção da alta de juros. Se a evolução dos preços é tão mais favorável que as projeções, para que continuar apertando a política monetária?

A disposição de encerrar o ciclo de aumento de juros teria sido indicada pelo presidente do BC, Alexandre Tombini, em palestra no dia anterior - segundo a interpretação de vários especialistas do mercado. Mas teria mesmo indicado essa disposição ou apenas mencionado sua expectativa de algum alívio das pressões nos próximos meses? Além disso, a referência ao efeito defasado das medidas monetárias vem sendo repetida há meses, mas até agora nada ocorreu. Valerá a pena parar tudo e esperar os efeitos, numa exibição de otimismo?

Mas nenhum otimismo é razoável quando se consideram os números publicados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O novo IPCA-15, apurado entre 15 de março e 11 de abril, subiu 0,78%, ou seja, 0,5 ponto a mais que no mês anterior. O aumento acumulado em 12 meses passou de 5,90% para 6,19%. Em janeiro havia chegado a 5,63%. Qualquer dessas comparações indica uma piora do quadro, ou, no mínimo, a persistência de pressões inflacionárias muito fortes.

Essas pressões são evidenciadas também pelo índice de difusão: na apuração anterior, 66,8% dos itens cobertos pela pesquisa haviam encarecido; na última, 72,09%. O único ponto positivo foi a redução da média dos núcleos, de 0,56% para 0,53%, segundo cálculo da Votorantim Corretora.

Os especialistas calculam os núcleos com base nos componentes considerados menos sujeitos a variações ocasionais. Para isso recorrem, por exemplo, à eliminação de itens classificados como mais instáveis, como alimentos e combustíveis, ou ao corte dos componentes com maiores taxas de variação. Mesmo com esses ajustes, o resultado nem de longe foi animador. Repetida, uma taxa de 0,5% ao mês corresponde a 6,17% em um ano. Dá para relaxar?

Nem no mercado financeiro, é justo reconhecer, houve unanimidade na adivinhação dos passos do Comitê de Política Monetária (Copom)do BC. Não se descartou totalmente, afinal, a possibilidade de um novo aumento da taxa básica de juros no fim de maio. No mínimo, convém pensar em possíveis surpresas nos dados econômicos com divulgação prevista para as próximas semanas.

A especulação sobre os próximos passos do Copom seria mais completa e mais segura, provavelmente, se os senhores do mercado financeiro examinassem a página 8 do roteiro usado pelo presidente do BC em sua exposição. Um gráfico exibido nessa página mostra a inflação ainda bem acima da meta de 4,5% em dezembro do próximo ano. Está mantida, portanto, a projeção contida no último relatório trimestral de inflação. Além disso, o próprio mercado ainda projetava, na semana passada, 6,47% para este ano e 6% para o próximo. São projeções mais altas que as do governo. Ou o mercado despreza suas projeções ou atribui ao Copom uma medalha olímpica de irresponsabilidade, ao admitir a hipótese de afrouxamento em breve, da política monetária.

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