A insegurança da indústria

Investir para crescer deveria ser o mote da economia brasileira, depois de quatro anos muito ruins, mas o empresário industrial continua à espera de sinais mais animadores para aumentar e modernizar a capacidade produtiva. Os planos de aplicar dinheiro em máquinas, equipamentos e instalações nos próximos seis meses são hoje menores do que há um ano, segundo sondagem da Confederação Nacional da Indústria (CNI). O índice de intenção de investimento ficou neste mês em 52 pontos, 9,5 pontos abaixo do nível de janeiro de 2014. O índice varia de 0 a 100 e números acima de 50 indicam avaliação positiva ou expectativa favorável. Os próximos meses continuam sendo de muita escuridão para os dirigentes do setor, principalmente para os da indústria de transformação, de acordo com a pesquisa. Mudar essa percepção é uma das tarefas mais complicadas do novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e, no fim das contas, a mais importante: crescimento depende de investimento e investimento depende de confiança para assumir compromissos e riscos.

O Estado de S.Paulo

30 Janeiro 2015 | 02h07

A intenção de investir diminuiu durante a maior parte do ano passado, aumentou ligeiramente no trimestre final e voltou a murchar neste mês. A piora da disposição em janeiro parece muito natural depois do recuo da produção em dezembro, mais acentuada, segundo a sondagem, que a dos anos anteriores. O indicador de produção despencou no fim do ano de 45,4 para 38,3 pontos, o nível mais baixo da série iniciada em janeiro de 2010. O porcentual de uso da capacidade instalada baixou de 70 para 68 em um ano.

A baixa disposição de investir combina também com as modestas expectativas de negócios nos próximos seis meses. O indicador de expectativa da demanda recuou de 55,8 pontos em janeiro de 2014 para 50,9 pontos neste mês. O da quantidade exportada diminuiu de 51,1 para 50,2 pontos. Para as indústrias pequenas e médias os dois índices ficaram abaixo de 50. Para as grandes, ficaram ligeiramente positivos nos dois casos - 52,5 pontos para a demanda e 51,3 para a exportação. As pequenas e médias, como tem sido normal no Brasil, continuam operando com maiores dificuldades em relação ao crédito e a outras condições essenciais para o crescimento e, muitas vezes, para a sobrevivência.

Os últimos dados oficiais sobre o desempenho da indústria são de novembro e foram divulgados no começo de janeiro pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De janeiro a novembro, a produção industrial foi 3,2% menor que a de um ano antes. As comparações foram negativas para todos os grandes conjuntos: bens de capital, intermediários e de consumo - duráveis e semiduráveis. A maior queda foi a da produção de bens de capital, isto é, de máquinas e equipamentos. O resultado ficou 8,8% abaixo do acumulado entre janeiro e novembro de 2o13. Como a importação de bens de capital também foi menor que a do ano anterior, a conclusão é inevitável: mais uma vez as compras de bens de produção diminuíram. Mais uma vez, portanto, deixou-se de cuidar da produtividade e da competitividade.

A afirmação vale para o conjunto da economia, embora ainda se desconheçam os dados finais do Produto Interno Bruto (PIB) e de sua composição. Mas o investimento, medido pela formação bruta de capital fixo, muito dificilmente deve ter melhorado, pelo menos de forma significativa, nos últimos três meses. No terceiro trimestre, o total investido pelo setor público e pelo setor privado foi 8,5% menor que o de um ano antes. O valor investido nesse período equivaleu a 17,4% do PIB, a menor taxa para esse trimestre desde 2008, quando atingiu 20,7%.

Durante anos o crescimento econômico do Brasil foi puxado pelo consumo, mas essa mágica - muito confortável para o governo, econômica e politicamente - deixou de funcionar em 2011. O novo ministro da Fazenda anunciou a mudança de ênfase do consumo para o investimento, repetindo promessa de seu antecessor. Seriedade e firmeza - da presidente, em primeiro lugar - poderão criar as condições necessárias.

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