A insensatez das elites

Resta como explicação para a adesão a Bolsonaro a hipótese de que, para essa elite, a única coisa que interessa é evitar o retorno do PT ao poder

O Estado de S.Paulo

25 Setembro 2018 | 03h00

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso divulgou uma carta aberta rogando aos candidatos presidenciais ditos de centro que se unam para frear o que chamou, apropriadamente, de “marcha da insensatez” - isto é, a possibilidade de um segundo turno disputado entre Jair Bolsonaro (PSL), um populista que defende a ditadura, elogia torturadores e confessa nada entender de economia, e Fernando Haddad (PT), outro populista, que representaria a volta ao poder do grupo político responsável direto pela crise econômica, política e moral que o País hoje atravessa.

FHC se dirige “aos eleitores” em geral, mas o endereço de sua mensagem é bem mais específico: as elites nacionais.

De um lado, tem-se uma parte da elite econômica que se deixou impressionar pelas promessas ditas liberais de Bolsonaro, malgrado o fato, público e notório, de que o deputado sempre pautou sua medíocre vida parlamentar e política pela defesa do estatismo e contra as reformas estruturantes. 

São tão frágeis os alegados elos de Bolsonaro com qualquer ideia de modernização da economia que custa crer que investidores e empresários que prezam seu dinheiro estejam realmente convencidos da conversão do ex-capitão ao credo liberal. Resta, como explicação para a adesão a Bolsonaro, a hipótese de que, para essa elite, a única coisa que interessa é evitar o retorno do PT ao poder - que representaria, segundo esse ponto de vista, transformar o País em uma Venezuela ou coisa pior. Mas a eleição de Bolsonaro eliminaria esse risco que ninguém, em são juízo, quer correr?

O integrante do baixo clero da Câmara soube encarnar esse antipetismo virulento, cuja marca é a absoluta intransigência com qualquer coisa que tenha a mais remota relação, às vezes apenas imaginária, com o PT. Há pouca coisa de consequente nesse comportamento - para esses eleitores, não importam as propostas de Bolsonaro, de resto totalmente desatinadas, e sim a promessa de aniquilar o lulopetismo. Ou seja, troca-se a insânia pelo desequilíbrio, querendo-se evitar o caos.

De outro lado, há uma parte substancial da elite intelectual do País que igualmente renunciou à moderação e hoje perfila ruidosamente nas hostes lulopetistas mesmo diante das evidências de que o PT e seu grande líder, Lula da Silva, se envolveram em grossa corrupção e de que o partido, quando governou o País, implementou uma política econômica francamente irresponsável, cujos efeitos nefastos se farão sentir por anos. Essa elite simplesmente se recusa a crer nas provas incontestáveis da indecência lulopetista no exercício do poder e nos dados sobre a degradação das condições de vida dos mais pobres do País como resultado direto das fantasias demagógicas de Lula. Qualquer informação que revele os erros e delitos do PT e de Lula é desde logo relacionada ao que esses intelectuais e artistas chamam de “golpe”. Nessa lógica, a culpa da crise, claro, é sempre dos outros - especialmente da oposição, que, dizem, “sabotou” a presidente cassada Dilma Rousseff. Não fosse isso, pode-se imaginar, o Brasil seria o Paraíso na Terra.

Como se vê, uma parcela importante das elites nacionais, que hoje deveriam estar debruçadas na discussão madura de soluções para os graves problemas nacionais, digladia-se numa guerra sem quartel, que torna praticamente impossível, a esta altura, qualquer forma de entendimento num futuro previsível. Está claro que essas elites não demonstram neste momento nenhuma disposição de encontrar o caminho do compromisso, sem o qual dificilmente a democracia se realizará na desejada plenitude.

É esse o alerta que Fernando Henrique Cardoso fez em sua mensagem: “Em plena vigência do Estado de Direito, nosso primeiro compromisso há de ser com a continuidade da democracia. Ganhe quem ganhar, o povo terá decidido soberanamente o vencedor e ponto final”. Para o ex-presidente, o dramático quadro atual demanda que se busquem “coesão política” e “sensatez para se juntar os mais capazes”. Do contrário, a eventual eleição de “um salvador da Pátria ou de um demagogo”, ambos com suas “promessas irrealizáveis”, levará “ao aprofundamento da crise econômica, social e política” - e “as demandas do povo se transformarão em insatisfação ainda maior”. Essa é a crua realidade, que nenhuma bravata é capaz de mascarar.

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