A interdição do Engenhão

O Estado do Rio e a prefeitura da capital fluminense gastaram R$ 1,6 bilhão para reformar o Maracanã e construir o Estádio Olímpico João Havelange, o Engenhão. Este, em que foram disputadas provas de atletismo e partidas de futebol nos Jogos Pan-Americanos de 2007, foi interditado pelo prefeito Eduardo Paes por tempo indeterminado por haver risco de a cobertura desabar. E, previsto para ser entregue em dezembro, o Maracanã só deverá reabrir em 28 de maio, a 19 dias do primeiro jogo da Copa das Confederações.

O Estado de S.Paulo

29 Março 2013 | 02h08

A pedra fundamental do Maracanã foi lançada em 20 de janeiro de 1948, e, após menos de dois anos e meio de trabalho, no dia 16 de junho de 1950, o estádio, durante muito tempo o maior do mundo, foi inaugurado para sediar jogos da Copa daquele ano. Sua reforma, se terminar no último prazo, o terceiro, custará R$ 1 bilhão e demandará dois anos, oito meses e meio, mais do que a construção, apesar dos avanços da engenharia civil desde então.

Orçada originalmente em R$ 60 milhões, a construção do Estádio Olímpico foi iniciada e, depois, abandonada pela Delta, empreiteira que alimentou o noticiário de escândalos com a divulgação das relações nunca explicadas entre seu dono, Fernando Cavendish, e o bicheiro goiano Carlinhos Cachoeira. Repassada ao consórcio formado pela Odebrecht e pela OAS, ela foi concluída às pressas e terminou custando seis vezes mais, R$ 380 milhões. Escolhido para as disputas de atletismo e futebol da Olimpíada de 2016, o Engenhão tem um longo histórico de problemas. O Botafogo, que o arrendou até 2027, foi informado pelo consórcio que o concluiu e é o atual encarregado de sua manutenção da existência de 30 problemas graves. Foram constatadas infiltrações nas casas de máquinas dos elevadores com risco de curto-circuito e nas juntas de dilatação que sustentam a estrutura. Já então se falava em falha de projeto que prejudicava o funcionamento do sistema no-break, cujos equipamentos não teriam sido projetados com refrigeração independente, o que prejudicava a operação dos geradores elétricos. Segundo O Globo, a prefeitura do Rio foi informada desses problemas há mais de um ano. Antes disso, em 2011, três partidas de futebol foram interrompidas por quedas de luz.

Esse histórico de problemas levou a autoridade municipal a monitorar a atuação do consórcio responsável pela manutenção e foi isso que motivou a encomenda de três laudos, um dos quais, o mais drástico, apontava para a possibilidade de desabamento da cobertura. A expressão "falha no projeto" foi usada pelo prefeito ao comunicar que tinha resolvido interditar a praça de esportes para evitar uma tragédia. "É inadmissível que um estádio construído há tão pouco tempo já enfrente esse tipo de situação", reclamou Eduardo Paes.

A interdição do Engenhão também afeta as provas de corredores fundistas e velocistas deslocadas para lá desde o fechamento do Maracanã para a reforma. E é mais um dos inúmeros exemplos de degradação progressiva das construções e dos equipamentos instalados no Rio para os Jogos Pan-Americanos de 2007. O Velódromo foi demolido, o Parque Aquático Júlio de Lamare também o será. O Estádio Célio de Barros, transformado em depósito de materiais para as obras do Maracanã, está prestes a ir ao chão. As cordas que demarcam as raias das piscinas estão guardadas num contêiner e não foram usadas na primeira regata do Estadual de Remo. A Arena Multiuso não é mais usada, porque seu aluguel custa caro demais. O "legado do Pan com nível olímpico", como o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Artur Nuzman, definiu o Engenhão em 2007, custou uma fortuna e está interditado.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a presidente Dilma Rousseff e o governador Sérgio Cabral comemoraram as escolhas do Brasil para sediar a Copa de 2014 e do Rio para a Olimpíada de 2016 garantindo que, depois desses eventos, a sociedade seria beneficiada com equipamentos e instalações adquiridos para eles. A realidade revelada pela herança do Pan mostra que isso é falácia.

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