A jogada de Kassab

A presidente Dilma Rousseff não esperava por essa. Enquanto outros presidentes de legendas aliadas do governo a procuram sofregamente na esperança de ganhar espaço numa reforma ministerial, o ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, presidente nacional do Partido Social Democrático (PSD), recusou as pastas que ela ofereceu. Ele avisou que sua bancada não vai aderir oficialmente à base governista antes da eleição presidencial de 2014. Dilma lhe teria acenado, conforme interlocutores que tomaram conhecimento da recente conversa entre os dois no Palácio da Alvorada, com a Secretaria de Assuntos Estratégicos, ocupada pelo ex-governador fluminense Moreira Franco, do PMDB, e a Secretaria de Micro e Pequena Empresa, que seria criada e destinada ao vice-governador paulista, Guilherme Afif Domingos.

O Estado de S.Paulo

16 Março 2013 | 02h10

Mas Kassab, que não aceita os rótulos de esquerda ou de direita e se mantém firme, pelo menos até o ano que vem, na decisão de ficar fora do governo, mas sem fazer parte da oposição, deixou uma porta aberta para o pretendente à pasta a ser criada: esclareceu que, se algum correligionário vier a ocupar algum Ministério, esta será uma decisão pessoal da presidente que convida e do pessedista que porventura aceite o convite, sem nenhum comprometimento do partido.

"Deixei claro que a gente não quer participar do governo, é uma decisão do partido. Participar do governo significaria ser da base, mas muita gente no partido não votou na Dilma. Eu, por exemplo, não votei nela. Mas não há problema de proximidade. Imagina se não está próximo um partido que, espontaneamente, por entender que ela é uma boa presidente, caminha para apoiar sua reeleição. O partido não vai participar do governo, mas ela está livre para convidar quem quiser", explicou o ex-prefeito, em entrevista ao Estado. Kassab negou que tenha discutido cargos no encontro com a presidente. Mas assessores palacianos informaram que o presidente nacional do PSD cogitou a possibilidade de Dilma chamar algum pessedista para entrar no Ministério "em caráter pessoal".

A recusa a ocupar gabinetes disputados na Esplanada dos Ministérios pode ser explicada pela diferença entre as dimensões das bancadas pessedistas no Senado e na Câmara e a oferta feita pela chefe do governo. Com 52 deputados e 2 senadores, o partido de Kassab só é menor no Legislativo do que as duas maiores legendas da base aliada, o PT e o PMDB. É patente a diferença entre essa força parlamentar, capaz de decidir questões importantes de interesse do governo no Congresso, e a perspectiva de ocupar duas secretarias de orçamento ínfimo e diminuta relevância política.

Kassab deixou claro em seu encontro com Dilma que não está ansioso para ocupar agora cargos irrelevantes no governo. Mas prefere negociar a ocupação num eventual segundo mandato, em caso de reeleição da presidente. Isso ficou explícito em outro trecho da entrevista dele: "Quem faz campanha junto governa junto. Não se trata de cargo. Eleição é isso: para você ocupar espaços precisa de uma delegação do povo para governar".

A espera até a disputa eleitoral de 2014 certamente dará tempo ao ex-prefeito para avaliar melhor as possibilidades de vitória nas urnas da aliança comandada pelo PT no pleito federal e, concomitantemente, as perspectivas de manutenção do governador tucano Geraldo Alckmin em seu cargo no maior Estado da Federação. A 19 meses das eleições federal e estaduais, o ex-prefeito não parece disposto a assumir agora um compromisso de aliança política que possa tornar inviável uma perspectiva concreta de vir a se candidatar pelo PSD ao governo paulista. A conjuntura política atual, que levou Dilma a lhe oferecer migalhas em troca de um apoio parlamentar que poderá ser decisivo, o libera para barganhar no ano que vem o apoio de seu partido, que é forte em várias unidades federativas, especialmente na que tem mais eleitores, São Paulo, por uma aliança com os petistas com seu nome encabeçando a chapa estadual. Afinal, os tucanos já não têm mais a força de antes, como demonstrou a derrota de Serra na capital, e não há entre os governistas um nome de consenso.

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