A lentidão das mudanças

A recente campanha eleitoral revelou uma contradição entre a forte expectativa de mudança de grande parte do eleitorado e a mesmice do resultado das urnas. Esse aparente paradoxo está presente em tudo o que sempre aconteceu no Brasil e, talvez, em todo o mundo. Na História do Brasil, mudanças sempre ocorreram lentamente. Depois que Cabral deixou as praias da Bahia, foram necessários quase 200 anos para os brasileiros descobrirem que eram brasileiros, e não mais portugueses.

Carlos Matheus, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2014 | 02h05

Ao tomarmos consciência de nossa nacionalidade, tivemos de sofrer um século de perseguições violentas dos portugueses, passando por Felipe dos Santos até Tiradentes, para conseguirmos nossa tardia e tão sonhada independência. Independentes, nossos antepassados precisaram de quase um século para acabar com a escravidão no País. O tenentismo já proclamara o envelhecimento da Primeira República quando Vargas tomou o poder. E este também envelheceu tão rápido a ponto de implantar uma ditadura para permanecer mais longamente no poder.

Ao tomar posse em 1955, Juscelino tentou apressar a História com seu projeto de realizar "50 anos em 5" em seu governo, mas tudo ficou incompleto. Jânio, em 1960, teve a mesma pressa. Não suportou o ritmo e desistiu logo. A tentativa parlamentarista de colocar lentidão na vida política brasileira também malogrou e a pressa com que João Goulart pretendeu realizar suas chamadas "reformas de base" trouxe de volta a ditadura. E foram necessários mais 20 anos para os militares tomarem consciência do engano que cometeram.

Escreveu Hegel que as mudanças na História amadurecem com o amanhecer: antes do primeiro raio de sol surgem os sinais prematuros do dia que desponta no horizonte. Assim também tem sido na História do Brasil. A República já amanhecia enquanto a monarquia fazia sua festa na Ilha Fiscal e as ditaduras envelheciam enquanto o sentimento democrático germinava. A deposição de Vargas em 1945 foi como um fruto maduro ou um ocaso melancólico de um regime esgotado. A campanha pelas eleições diretas iniciada em 1984 também anunciava o mesmo esgotamento da ditadura militar.

A partir de 1985 os brasileiros tiveram de reinventar a democracia. Os que haviam lutado contra a ditadura foram chamados para construir o futuro, que começou a ser escrito por Ulysses Guimarães, com sua "Constituição cidadã". Ulysses foi preterido pela História e lançado ao mar, deixando em seu lugar Tancredo Neves, a quem a História também não deu lugar. Tempos de transição se seguiram, em busca de um regime mais bem ajustado à realidade brasileira.

Foram necessários mais dez anos para que o Brasil encontrasse um novo rumo em direção à democracia. Entre 1984 e 1994 os governantes foram sendo sucessivamente devorados pela inflação e pela improvisação política. Exemplos emblemáticos desse período foram o congelamento dos preços e a escolha apressada de um obscuro "caçador de marajás", dos quais só restaram a frustração e o aprendizado. Novo, nesse período, foi o aparecimento do PT. Seu líder, Lula, perdeu por muito pouco a eleição de 1989. Perdeu, mas saiu vitorioso: uma vitória em que nem mesmo ele acreditou. Precisou perder mais duas outras eleições para descobrir que representara o novo em 89.

A lentidão das mudanças prosseguiu a partir de 1995. O governo de FHC, com o combustível da estabilidade da moeda, permaneceu oito anos no poder graças ao artifício da mudança constitucional, mas também envelheceu. Os brasileiros demoraram para notar que a inflação permanecia e recorreram ao que já fora novo nos tempos de Collor. Acreditando já ser possível "viver sem medo de ser feliz", aderiram à bandeira do PT. Certo deslumbramento nacional e até mundial envolveu a figura do operário que se tornara presidente da República, criando a falsa impressão de no Brasil haver grande mobilidade social. Estaria ele preparado para governar? Claro que não, mas isso pouco importava, já que seu partido assumiria a tarefa. Muita improvisação e alguns êxitos levaram o PT a permanecer no poder oito anos com Lula e, agora, mais oito com Dilma. Os sinais de mudança que despontaram em 2013 anunciaram o envelhecimento do que já fora novo. A eleição de 2014 revela o confronto entre o que envelheceu sob a figura de quem venceu em contraste com o novo que se busca na imagem de quem perdeu. Há algo de inegável sob a lógica dos dados: Aécio Neves sai vitorioso pelo fato de representar o novo e Dilma Rousseff sai derrotada porque representa o que envelheceu.

No Brasil, tudo o que é novo cresce do Sul para o Norte ou do Sudeste para o Nordeste. Assim foram as revoluções do período colonial, assim começou a rebeldia de Vargas contra a Primeira República e assim cresceu o antigo MDB contra a Arena durante o período militar. E assim também cresceu o PT, expulsando o PMDB para o Norte e o Nordeste. As eleições de 2014 mostraram o mesmo processo. Não foi o PSDB que cresceu: foi o novo que empurrou o PT para o mesmo Nordeste onde o PMDB desfalece e onde a resistência à República havia gerado a rebelião de Canudos.

O Brasil é um país espacialmente extenso e temporalmente lento. A distância que separa suas elites intelectuais do semialfabetismo popular é colossal. É necessária uma grande revolução educacional que reduza no tempo o que atualmente a internet consegue reduzir no espaço para que o País possa ajustar-se ao ritmo das mudanças que ocorrem no mundo.

Essa distância no tempo está presente sob a herança de Tancredo Neves: tendo sido o primeiro dos primeiros-ministros antes da ditadura militar e, depois desta, o primeiro presidente eleito, parece herdar seu nome quem traz consigo a tarefa de ser o porta-voz das mudanças que os brasileiros do Sul pretendem oferecer aos do Norte.

*Carlos Matheus foi diretor do Instituto Gallup e professor titular de Ética e Filosofia Política da PUC-SP. E-mail: cemmatheus@uol.com.br 

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