A lição de casa do prefeito

O prefeito Gilberto Kassab reconheceu, em entrevista ao Estado, que São Paulo foi duramente castigada desde a sua reeleição. A crise econômica resultou na queda momentânea da arrecadação, o que provocou cortes de verbas orçamentárias em setores essenciais como limpeza pública e manutenção das vias e, consequentemente, no último verão, que foi excessivamente chuvoso, boa parte da capital submergiu: vidas se perderam em deslizamentos, bairros inteiros ficaram semanas sob as águas, a população arcou com incontáveis prejuízos e a cidade hoje está feia, suja e esburacada. "Estamos num momento de virada", anuncia o prefeito, referindo-se ao plano de ações para recuperar São Paulo e também sua imagem de administrador público.

, O Estado de S.Paulo

23 Abril 2010 | 00h00

Gilberto Kassab está convencido de que "fez a lição de casa" em 2009, ao decidir cortar gastos ? preservando investimentos apenas em Saúde e Educação ? e não acumular dívidas. Mas há gastos que são indispensáveis. Estudos mostram que reconstruir ruas custa mais caro do que conservá-las. Além disso, vidas não têm preço e o número de mortos na última temporada de chuvas chegou a 18, quase cinco vezes mais que no ano anterior.

Duas previsões feitas em meados de 2009 revelaram-se certeiras: o verão bateria recorde de chuvas e a retomada da economia ocorreria a partir dos primeiros meses do ano. Numa cidade onde milhões de pessoas vivem em áreas de risco, o sistema de drenagem é falho, a impermeabilização do solo é grande e o trânsito é cronicamente congestionado, economizar na manutenção de galerias, bocas de lobo, coleta de lixo, varrição e pavimentação é receita certa para mais problemas.

E, se a Prefeitura tivesse decidido gastar na conservação e limpeza das vias públicas, o crescimento da arrecadação em 2010 poderia recuperar as finanças municipais. A receita mensal no primeiro trimestre deste ano saltou para R$ 60 milhões, contra R$ 40 milhões no mesmo período do ano passado. O IPTU renderá aos cofres municipais 30% mais, passando para R$ 1,7 bilhão ? R$ 400 milhões além do arrecadado em 2009. Proporcionalmente maior ainda é a arrecadação do Imposto Sobre Transmissão de Bens Imóveis (ITBI) que, no primeiro trimestre, já se elevou em 50%.

Em reportagem publicada na última edição da revista Veja São Paulo, o engenheiro Douglas Villibor, professor aposentado da USP São Carlos, lembra que estudos internacionais comprovam que, para cada dólar que deixa de ser investido em conservação de vias públicas, é preciso desembolsar até US$ 3 em recapeamento e tapa-buraco.

Portanto, os gastos em obras de pavimentação poderiam ser muito menores, se os serviços de conservação não sofressem cortes de verbas e, assim, pudessem ser executados continuamente. A economia poderia ser muito maior, se São Paulo tivesse um plano diretor de pavimentação ? como há, por exemplo, em Curitiba ? e controlasse permanentemente os corredores de maior fluxo de trânsito.

Com R$ 30 milhões gastos em conservação, é possível garantir as boas condições de 10 mil quilômetros de vias por ano, ensina o diretor da empresa de gerenciamento viário Dynatest, Ernesto Preussler. Esse é o gasto da Prefeitura de São Paulo para recapear apenas 75 quilômetros de rua. No ano passado, para tapar pouco mais de 690 mil buracos, foram usados R$ 76,8 milhões.

A administração pública poderia fazer ainda mais com os recursos de que dispõe se utilizasse as novas tecnologias, desenvolvidas pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) da USP, que proporcionam maior durabilidade e permeabilidade à pavimentação. Haveria também lições a aprender com as experiências de outras grandes cidades brasileiras, como Belo Horizonte, onde os contratos com as empresas responsáveis pela manutenção das ruas fixam um valor mensal a ser gasto para a execução dos serviços necessários.

O prefeito Gilberto Kassab promete que "a cidade vai ficar bonita de novo". O que ela precisa é de conservação, bem-feita e permanente.

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