A limpeza na Petrobrás

A redução de 89% do lucro da Petrobrás no segundo trimestre deste ano na comparação com o mesmo período de 2014 por certo frustrou os investidores. Mas não é mais do que uma das consequências financeiras das duras providências que a atual gestão da empresa está sendo obrigada a adotar para limpar suas contas dos efeitos da pilhagem a que o esquema do petrolão a submeteu durante anos, impondo-lhe perdas de vários bilhões de dólares, de acordo com o que a Operação Lava Jato revelou até agora.

O Estado de S. Paulo

12 Agosto 2015 | 03h00

O balanço trimestral, que registrou lucro líquido de R$ 531 milhões, bem menor dos que R$ 4 bilhões esperados pelos investidores, “priorizou a transparência e a previsibilidade”, disse o presidente da empresa, Aldemir Bendine. Por isso, seus resultados podem ter decepcionado. O critério será mantido pela empresa, neste ano que sua direção vem considerando de ajuste de contas, de modo que o resultado no fim do exercício talvez “não mostre a grandiosidade da companhia”. Continuará sendo frustrante.

As demonstrações contábeis relativas ao segundo trimestre mostram a debilidade financeira da estatal e indicam dificuldades que persistirão por um bom tempo, o que retardará a recuperação de sua capacidade operacional e de suas finanças. Mas mostram, também, o esforço da sua diretoria no sentido de torná-las mais realistas e confiáveis.

“Estamos fazendo aquilo que deveria ter sido feito antes”, explicou Bendine. E isso vem sendo feito num ambiente desfavorável: a queda do preço do petróleo, de US$ 114 o barril em meados do ano passado, para a média de US$ 60 no período compreendido pelo balanço, comprime o resultado das exportações; já a alta do dólar em relação ao real fez crescer suas importações (a estatal importa parte dos derivados de petróleo com que abastece o mercado interno).

Passivos tributários acumulados nos últimos anos vão sendo pagos, lançados ou provisionados, o que afeta os resultados. A Petrobrás já havia informado o pagamento de R$ 1,4 bilhão à Receita Federal; além disso, decidiu antecipar o provisionamento para o pagamento de tributos que vinha questionando. Essa decisão nada tem a ver com a necessidade do governo de fazer caixa para alcançar o superávit primário prometido. “Isso é problema do Tesouro. Não estamos aqui para fazer caixa para o Tesouro”, garantiu o presidente da empresa. Se mantiver essa atitude de independência em relação ao principal controlador da empresa, será mais fácil de ajustar as finanças da estatal.

O balanço também registrou a baixa contábil de R$ 1,2 bilhão, valor referente a ativos que se tornaram fictícios, como a unidade de fertilizantes em Uberaba (MG), cuja construção parou, e campos de óleo e gás dos quais a empresa está se desfazendo.

No segundo trimestre, a empresa alcançou alguns resultados positivos, como um lucro operacional de R$ 9,48 bilhões (7% mais do que no mesmo período de 2014) e uma capacidade de geração de caixa (conhecida como Ebitda, ou seja, lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de R$ 19,71 bilhões, ou 21,7% maior do que a de 2014.

Mas, por causa dos maus negócios em que se envolveu, da pilhagem de que foi vítima pelo esquema do petrolão, dos ambiciosos programas de investimentos que teve de assumir por ordem do governo do PT e de erros variados de gestão decorrentes de seu uso político, a Petrobrás está muito endividada. A dívida corresponde a 51% do patrimônio líquido, menos do que os 52% registrados no fim do primeiro trimestre, mas muito acima dos 35% que a própria companhia considera o nível desejado para uma empresa de seu porte e de sua participação no mercado.

Dada a dimensão do saque que abalou as finanças da Petrobrás, o ajuste não terminou e exigirá novas providências, como o corte dos investimentos, para que seu nível de endividamento igualmente se reduza. Embora sua diretoria se diga satisfeita com os resultados já alcançados, eles ainda estão contaminados pelo petrolão, cujos efeitos perdurarão por um bom tempo.

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