A linha dura de Xi Jinping

Para enfrentar esse problema, num país de dimensões continentais e com uma população de 1,4 bilhão de habitantes, os líderes chineses sempre viram na disciplina do partido de 89 milhões de membros e no aparelho repressivo do Estado elementos necessários para manter a estabilidade e a união nacional

O Estado de S.Paulo

21 Outubro 2017 | 03h12

A respeito do comportamento de seu país nos próximos anos, o recado do presidente Xi Jinping, que já tem garantido um novo mandato, foi claro em seu discurso no 19.º Congresso do Partido Comunista Chinês (PCC): economia cada vez mais integrada ao mercado internacional, esforço para melhorar as condições de vida da população e linha dura no combate a qualquer ameaça à autoridade do partido e a seu papel na manutenção da ordem social e política. Em outras palavras, é reforçada ainda mais a política tradicional do PCC, desde os anos 1980, de modernização da economia, mas sem abertura do regime político.

“Cada um de nós deve fazer mais para defender a atualidade do partido e do sistema socialista chinês e opor-se decididamente a qualquer palavra ou ação para miná-los”, afirmou o presidente. O crescimento acelerado da China nas últimas décadas transformou-a na segunda economia do mundo, aumentou a renda per capita, mas fez crescer também as tensões sociais e o descontentamento de parcelas da população. Para enfrentar esse problema, num país de dimensões continentais e com uma população de 1,4 bilhão de habitantes, os líderes chineses sempre viram na disciplina do partido de 89 milhões de membros e no aparelho repressivo do Estado elementos necessários para manter a estabilidade e a união nacional.

O fantasma da dissolução da União Soviética e seu império sempre esteve presente na China. Desde a liderança de Deng Xiaoping, de 1978 a 1992, que implantou o que veio a ser chamado de socialismo de mercado e abriu o caminho para o país chegar a sua posição atual, os líderes chineses deixaram claro que as reformas modernizadoras e liberalizantes se limitariam à economia. Reformas que, como Xi Jinping reconhece, tiveram reflexos na estrutura social. Ele citou como exemplo as tensões criadas pela desigualdade econômica, a poluição ambiental e o acesso inadequado à saúde, educação e moradia.

A resposta a isso é ao mesmo tempo um esforço para a correção das desigualdades e um reforço ainda maior da centralização política e da capacidade de controle do partido. Para Xi Jinping, que foi direto ao ponto, sem meias-palavras, “manter a China sob controle requer punição e recompensas”.

O que vai de par com o combate à corrupção, que proliferou no aparelho partidário e na imensa burocracia estatal, ao mesmo tempo que os grandes negócios. Este foi um dos pontos fortes de seu primeiro mandato, que Xi Jinping acaba de reafirmar: “A corrupção é a maior ameaça para o partido”.

No plano econômico, a disposição para a abertura continua. O presidente chinês promete “limpar as regras e práticas que impedem um mercado unificado e a competição justa”, além de “sustentar o desenvolvimento de empresas privadas e estimular a vitalidade de todos os tipos de entidades do mercado”. Xi Jinping afirmou que a China se abrirá ainda mais para o mundo. E foi mais longe, ao garantir que seu governo “protegerá os direitos e interesses legítimos dos investidores estrangeiros” e que “todas as empresas registradas na China serão tratadas em pé de igualdade”.

O fato de o presidente chinês ter se referido a seu país como “grande potência” 26 vezes em seu discurso no 19.º Congresso do PCC demonstra que ele tem perfeita consciência de tudo o que isso significa e que a China está disposta a se comportar como tal, desempenhando seu papel “de forma importante e responsável”. Para advertir em seguida que seu país jamais abrirá mão dos direitos que julga ter sobre Taiwan, como parte de seu território.

Xi Jinping expôs suas posições de maneira clara e precisa. Da China se pode esperar um papel equilibrado na cena internacional, tanto do ponto de vista diplomático como econômico, mas no plano interno a modernização e a abertura não atingirão a política, campo no qual não se devem esperar concessões. A regra continuará a ser, como sempre, a linha dura.

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