A logística engatinha

A principal frente do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) - melhorar a infraestrutura nacional - está muito aquém do prometido. De acordo com o levantamento da ONG Contas Abertas com base no 11.º balanço do governo federal relativo à segunda etapa do programa, apenas um terço das melhorias previstas nas hidrovias, ferrovias e rodovias tinha sido concluído até outubro do ano passado.

O Estado de S.Paulo

18 Março 2015 | 02h05

Na segunda etapa do PAC, cujo início coincide com a posse da presidente Dilma Rousseff em 2011, foram previstos 553 empreendimentos relacionados às hidrovias, ferrovias e rodovias. No entanto, em outubro de 2014 apenas 192 haviam sido concluídos, o que representa um índice de 34,7% do total das obras prometidas. Por outro lado, quase o mesmo número de iniciativas não tinha saído do papel: 162 obras estavam em fases anteriores ao início da execução.

A grande maioria - mais de 80% - dos empreendimentos previstos no PAC 2 para a melhoria do sistema de transporte nacional referia-se a rodovias. Eram 452 iniciativas de adequação, duplicação, construção ou pavimentação de trechos rodoviários. De acordo com o 11.º balanço do PAC 2, apenas 152 haviam sido concluídas, e outras 144 ainda nem tinham sido iniciadas, estando em elaboração de projeto ou em ação preparatória (em alguma etapa prévia à licitação, contratação ou execução).

O PAC 2 previa 46 empreendimentos relativos às ferrovias. No entanto, em quatro anos de duração do programa, apenas 17 tinham sido entregues. Metade das iniciativas previstas ainda estava em execução ou em obra, e seis ainda não haviam saído do papel. Resultado similar foi constatado nas hidrovias: dos 50 empreendimentos previstos, apenas 19 tinham sido entregues até outubro de 2014 e 12 ainda estavam no papel.

De acordo com Carlos Campos, especialista em infraestrutura do Ipea, o baixo porcentual das obras concluídas não se deve apenas à burocracia, mas a problemas de planejamento e execução. Ele cita, como exemplo, o problema na aquisição de trilhos para as ferrovias. "O ritmo dos empreendimentos é lento. O Brasil não produz trilhos, então, foi preciso trazer de fora e somente agora estão começando a chegar. Foram necessários pelo menos três processos licitatórios para a compra", afirma Campos.

No entanto, o Ministério dos Transportes, que é o responsável pelas obras nas hidrovias, ferrovias e rodovias, parece estar satisfeito com os resultados alcançados. Diz que não utiliza como parâmetro a quantidade de obras concluídas, e sim os valores executados. Segundo o Ministério, os investimentos do PAC 2 em rodovias, ferrovias e hidrovias estão reduzindo os gargalos logísticos e integrando a malha de transporte nacional, o que reduz o custo da produção nacional, tanto no mercado interno quanto no externo. Ora, infelizmente isso está longe de ser uma realidade. De acordo com pesquisa da Fundação Dom Cabral, os gastos com logística absorvem, em média, 11% do faturamento das empresas brasileiras, acima da média de concorrentes como EUA (8,5%) e China (10%). Em algumas áreas, esse porcentual é ainda maior. Na indústria da construção, por exemplo, o custo com logística é de 21,33% da receita bruta e no setor de papel e celulose corresponde a 28,33%.

O País ainda enfrenta graves e persistentes problemas logísticos, e o término da segunda fase do PAC seria uma excelente oportunidade para uma análise realista dos resultados obtidos. No entanto, o governo de Dilma Rousseff desperdiça a oportunidade e simplesmente repete o mesmo discurso utilizado no seu lançamento, fingindo não ver o quanto ficou por fazer.

Ao apresentar o 11.º balanço do programa, o governo teve o descaramento de dizer que o PAC estava "construindo a infraestrutura necessária para sustentar o desenvolvimento do Brasil" e que "toda equipe que trabalhou no PAC 2 tem o sentimento do dever cumprido e de que o melhor balanço é constatar que brasileiros vivem melhor". O País merece um pouco mais de seriedade.

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