A má política dos mitos

Vivêssemos a polarização da guerra fria, a crise brasileira já teria tido um desfecho previsivelmente catastrófico

LUIZ SÉRGIO HENRIQUES*, O Estado de S.Paulo

15 Julho 2018 | 03h00

Vivêssemos a polarização da guerra fria, a crise brasileira já teria tido um desfecho previsivelmente catastrófico. É duvidoso que os atores do passado pudessem ter plena consciência do que faziam, mas o fato é que, falso ou verdadeiro, o fantasma do comunismo, ou da República sindicalista, foi mais do que suficiente para mobilizar nesta parte do mundo uma violenta reação em 1964, assim como em outras partes, como na Hungria de 1956 ou na Checoslováquia de 1968, forças de sinal contrário se impuseram, esmagando resistências e impondo soluções igualmente repressivas.

Bandeiras vermelhas ou gestos do comunismo, como o punho fechado, podem até continuar presentes, mas serão expressões sobretudo retóricas, ainda que possam prenunciar autoritarismos de tipo diferente dos do passado, que eram ou pretendiam ser “totais” em sua oposição ao mercado e à democracia “burguesa”. Um subperonismo será sempre possível e merecerá combate aberto de quem preza as liberdades, mas deve-se reconhecer que não há propriamente componente antissistêmico no petismo. 

Daí que não haja nenhum paradoxo no fato de que a força de Lula, consolidada em um terço do eleitorado, derive fundamentalmente de um amplo – e em si mesmo razoável – programa de extração neoliberal, que abrange dezenas de milhões de compatriotas prisioneiros da miséria. Como é do conhecimento geral, o governo “golpista” não o extinguiu e não se vislumbram forças que queiram fazê-lo. Por isso mesmo, é irrazoável, aí, sim, que tenha servido para a construção do potente mito lulista, em vez de ser tomado como política pública do Estado democrático, com as qualidades e os defeitos de qualquer política.

Em que pesem as grandes mudanças do novo século, esquerda e direita não são posições inúteis ou anacrônicas, embora possam perfeitamente se comportar como tal. Na grande crise de agora, uma parte considerável decorre de escolhas do ator e da fragilidade de seu repertório. No caso do PT, a escolha do populismo, traço muito presente na tradição latino-americana em seu conjunto, representou pesada hipoteca, a implicar a identificação do líder (yo, el supremo) com o povo-nação, a desqualificação das oposições e o desprezo pelas mediações institucionais.

A degradação em larga escala do Parlamento – como o atestou há alguns anos o julgamento da correspondente ação penal pela Suprema Corte – esteve incluída nessa escolha. A sofreguidão para construir narrativas “heroicas”, como aquela que viu o impeachment de um mau governo como “golpe”, lançou raízes insólitas. Afinal, o golpe teria prosseguido com os subsequentes problemas judiciais do homem providencial, a quem seria lícito, entre outras coisas, adotar uma atitude de confronto permanente com o Judiciário e qualquer sujeito ou instância que considere “golpista” ou responsável por seus males.

O anacronismo petista não ficaria sem consequências. Mito por mito, a extrema direita também pode muito bem construir o seu, em sintonia com as pulsões radicais que passaram a percorrer o mundo a partir de Donald Trump e de várias forças nacionalistas europeias, anteriormente à margem da política de seus países. Múltiplas e variadas têm sido as explicações para a ascensão desse tipo de político no coração de democracias seculares e aparentemente protegidas da demagogia populista de direita, com suas conotações racistas, xenófobas e culturalmente regressivas. Insiste-se bastante, por exemplo, no apoio de massas que hoje consegue obter a defesa da economia nacional enfraquecida com as deslocalizações industriais, a livre movimentação dos fatores de produção e outras características do globalismo economicamente liberal.

O mito brasileiro da extrema direita tem uma trajetória compatível com esse quadro. Observado ao longo de sucessivos mandatos sem maior brilho, o que por si só deveria embaçar o rótulo de alheio à “casta” dos políticos, a nova figura mítica tem um desempenho que a enquadra na falange direitista do nacional-estatismo, salvo conversão de última hora ao ultraliberalismo do hipotético ministro da Fazenda que apresenta aos mercados. Na verdade, a recentíssima pregação ultraliberal, além de se chocar com os sinais de origem do candidato, promete-nos a construção de “uma grande sociedade aberta”, tomando como alvo uma suposta hegemonia social-democrata a partir de 1988.

Em função dessa promessa se segue pelo menos uma segunda contradição. Não há como dissociar a extrema direita nacional das manifestações análogas que varrem o Ocidente democrático. Traço distintivo de todas elas, naturalmente adaptado às situações locais, é uma orientação cultural retrógrada. A estratégia é semelhante em todos os casos: trata-se de contestar com histrionice, mobilizando os medos alojados no senso comum, as situações mais extremas e indesejadas produzidas pelo “politicamente correto”.

De fato, a correção política, decorrente da mistura global de pessoas e culturas, pode ser instrumento valioso de convivência ou derivar para a reivindicação de identidades exclusivas, em permanente conflito. Fácil demais explorar essa fragilidade, apresentando um imaginário mundo hierarquicamente ordenado em termos de raça, gênero e classe, que liquidaria a diversidade e o próprio conflito. A dificuldade é compatibilizar a retórica autoritária própria de tal estratégia com a grande sociedade aberta, tolerante e pluralista, em torno da qual todos nos poderíamos reunir.

Organizar a política na forma de mitos tem sido uma característica moderna, exponenciada numa época, como a nossa, que parece requerê-los com fúria e intensidade. Podem até ser inevitáveis em certa medida, mas, sejam quais forem as ideologias envolvidas, abandonarmo-nos a eles de modo imprevidente significa abrir as portas para o fanatismo que hoje costuma ser metodicamente organizado.

*TRADUTOR E ENSAÍSTA, É UM DOS ORGANIZADORES DAS ‘OBRAS’ DE GRAMSCI. SITE: WWW.GRAMSCI.ORG

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