A manutenção das pontes

Pontes e viadutos da cidade de São Paulo passarão a ter manutenção preventiva a partir deste ano, conforme determina o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado pela Prefeitura a pedido do Ministério Público Estadual (MPE). O instrumento exige, deste e dos próximos governos, o cumprimento do cronograma de obras previstas no plano de manutenção elaborado pela Secretaria Municipal de Infra-Estrutura Urbana (Siurb) em conjunto com o Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva (Sinaenco) e o Instituto de Engenharia. Exige-se, assim, o cumprimento do dever dos administradores públicos de zelar pelos investimentos realizados em grandes obras, um patrimônio que, em São Paulo, vale R$ 8 bilhões.Por causa da geografia acidentada da capital paulista e seus 3,2 mil quilômetros de rios, córregos e afluentes, foram construídos, desde o início do século passado, 270 pontes e viadutos na cidade, que estão sob a responsabilidade direta da Prefeitura. A maioria foi inaugurada entre 1930 e 1970 e, nesses anos todos, só mereceu atenção quando esteve prestes a ruir ou depois de acidentes que abalaram suas estruturas.Ao contrário das grandes capitais do mundo, onde esse tipo de construção é inspecionado em períodos que variam de dois a cinco anos, a Prefeitura de São Paulo sempre ignorou a manutenção preventiva das obras-de-arte. Na maior parte, as pontes são estruturas planejadas para suportar a passagem de caminhões de até 36 toneladas, mas carretas de 50 toneladas cruzam rotineiramente essas vias, excedendo a capacidade projetada. O tráfego pesado, os choques de caminhões contra colunas e vigas, a umidade, a poluição e a corrosão provocam rachaduras, buracos, desníveis e desgaste das estruturas.Um inventário nacional sobre o estado da infra-estrutura urbana das metrópoles brasileiras, realizado pelo Sinaenco há dois anos, apontou que, dos 270 viadutos e pontes da capital paulista, 10% apresentavam estruturas deterioradas e exigiam reparação imediata e 50% requeriam pequenos reparos. No mesmo ano, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas da Universidade de São Paulo (IPT-USP) identificou 20 vias elevadas em situação crítica. A reforma destas obras-de-arte exigiria pelo menos R$ 220 milhões.Em 2002, a ex-prefeita Marta Suplicy alarmou a população ao declarar que, por falta de manutenção, pontes e viadutos poderiam "cair a qualquer momento". Apesar disso, pouco fez para recuperá-los, repetindo o erro da maioria de seus antecessores: anunciou amplas reformas que, depois, caminharam a passos de tartaruga até serem totalmente abandonadas no fim do governo.Para recuperar todas essas obras seriam necessários gastos anuais de R$ 160 milhões. Mas verbas nesse montante geralmente são destinadas para novas obras, que têm maior apelo eleitoral. Estima-se que os reparos de uma ponte que não teve manutenção adequada podem custar até 30% do valor de uma ponte nova. Segundo o secretário municipal de Infra-Estrutura Urbana, Marcelo Branco, o custo de uma ampla reforma de uma ponte não é inferior a R$ 8 milhões. Sua Secretaria calcula que 90% das pontes e viadutos da cidade precisam de algum tipo de reparo, mas, nos últimos dois anos, foram destinados para esse fim recursos muito aquém dos necessários. Em 2005, primeiro ano da administração Serra/Kassab, apenas R$ 12 milhões foram empregados nesse tipo de obra. Em 2006, foram R$ 18 milhões.O secretário Marcelo Branco afirma que a assinatura do Termo de Ajustamento de Conduta representa o início da criação de um sistema de manutenção preventiva na administração municipal. O programa prevê a manutenção, inicialmente, de 58 equipamentos viários públicos. Seis já estão em obras, outros 3 começarão a ser reformados em breve e 6 estão em fase de licitação. Nas 15 vias elevadas serão investidos R$ 85 milhões.Vamos esperar que esse plano não se torne outra grande promessa engavetada. A Prefeitura tem o dever de proteger os investimentos públicos e zelar pela segurança da população.

O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2002 | 00h00

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