A massa e a horda

Encerradas as manifestações populares, recomenda-se fazer o inventário do que sobrou passado o furacão. Quando se imaginava que o governo da presidente Dilma Rousseff se achava forte e que o Bolsa Família lhe garantiria a reeleição, eis que, de um momento para o outro, tudo foi abaixo, o índice de aprovação popular despencou e já se especula com a volta de Lula, como derradeira chance de vitória do PT em 2014.

Almir Pazzianotto Pinto,

02 Julho 2013 | 02h10

O que se passou nas últimas semanas, e alterou os rumos do País, não era previsto. Da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) à Polícia Federal e aos serviços de informações das polícias estaduais, passando pela comunidade de cientistas políticos, ninguém imaginou que o aumento de 20 centavos no preço do Bilhete Único se transformasse no estopim capaz de deflagrar avassaladora temporada de perigosas agitações urbanas.

Nenhuma autoridade se revelou preparada e capaz assumir posição lúcida diante das massas. Dezenas de milhares tomaram de assalto as ruas, praças e avenidas e a única solução consistiu - como era comum durante o regime autoritário - no emprego da polícia e de tropas de choque. Repentinos abalos sísmicos fizeram aflorar do subsolo social a indignação que há entre estudantes, trabalhadores, donas de casa, pequenos empresários, servidores públicos, aposentados, denunciando a revolta do povo diante dos desmandos federais, estaduais, municipais. A Nação presenciou, sem sentido pejorativo, algo como o estouro da boiada, magistralmente descrito por Euclides da Cunha em Os Sertões.

Brasileiros de todas as camadas sociais e idades, convencidos de que não dispõem de canais de comunicação com os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, renegaram os representantes políticos para proclamar, com as vozes das ruas, que nenhum dos partidos reconhecidos pelo Tribunal Superior Eleitoral é credor de confiança. Do PMDB, o primeiro de extensa relação, ao Partido Ecológico Nacional (PEC), cujo registro leva o n.º 30, passando por PTB, PDT, PT, DEM, PCdoB, PSD, PSDB, PP, PSL, PCO, todos, na opinião generalizada, são meras siglas controladas por dirigentes indefinidos ideologicamente, na disputa do poder pelo poder, de ministérios, empresas públicas, sociedades de economia mista, empregos e dinheiro.

Aceso em São Paulo, o rastilho alastrou-se, provocando explosões pelo caminho, pois não lhe faltaram barris de pólvora, acumulados por administrações venais. Corrupção à solta e impune, dinheiro do contribuinte investido na construção de estádios faraônicos, vizinhos de hospitais quebrados, escolas degradadas, ruas esburacadas, e a insegurança generalizada levaram o povo às manifestações, que deveriam ser ordeiras, mas, por carência de lideranças e de interlocutores, desaguariam em condenáveis atos de vandalismo.

Gustavo Le Bon, autor de Sociologia das Multidões, descreve o que denominou "multidão psicológica", ou "alma coletiva". A seu ver, "o fato mais surpreendente apresentado por uma multidão psicológica é o seguinte: quaisquer que sejam os indivíduos que a compõem, por mais semelhantes ou dessemelhantes que possam ser o seu tipo de vida, suas ocupações, seu caráter ou sua inteligência, o mero fato de haverem se transformado em multidão dota-os de uma espécie de alma coletiva". Para Le Bon, "o estado normal da multidão contrariada é o furor".

Sigmund Freud, por sua vez, em Psicologia das Massas, ensina que o caráter inquietante e coercitivo das formações coletivas consiste na afinidade com a horda primitiva, da qual descende. Para se manter dentro da ordem, segundo Freud, a massa exige o chefe investido de poderes absolutos, sem o qual se perde, fica fora de controle e parte para a violência.

Não bastasse, sempre ocorre algo que Le Bon e Freud não chegaram a conhecer: a ação de provocadores. Infiltrados por radicais de esquerda e de direita, ocultam-se dentro da massa, até que surjam oportunidades de agir. Como advogado de sindicatos, na Secretaria e no Ministério do Trabalho, conheci vários, sempre empenhados em estimular badernas, para alcançar algum proveito político.

Entender as origens e o desdobramento das manifestações não é difícil. Basta observar o semblante dos participantes. Agrupados em grandes massas, conduzidos por vagas palavras de ordem, sem um líder, hierarquia e organização, extravasaram frustrações diante do procedimento leviano de representantes que, depois de eleitos, renegam compromissos e abandonam quem os elegeu. Agora, exigem que se afastem, caiam fora, permitam a mudança de homens e costumes.

As redes sociais, tecidas via internet, passaram a fazer as vezes de associações, religiões, sindicatos e partidos. É por meio delas que internautas se conhecem, se expressam, constroem laços de solidariedade, transmitem mensagens, com a velocidade que antigas gerações nunca tiveram. A descoberta das redes como veículos de mobilização política é a extraordinária novidade, que partidos e políticos revelam desconhecer, e não saber usar.

As maiores surpresas dos últimos dias correram à conta do comportamento das autoridades. Da perplexa presidente Dilma a patéticos ministros, governadores, nenhuma esteve à altura da crise. Diminuíram-se ao entregarem à polícia a impossível tarefa de resolver, com balas de borracha, gás lacrimogêneo e cassetetes, problemas de cunho social.

Cabe agora, sobretudo aos jovens, fincar pé na vida política com o propósito de injetar vida e dar alma a partidos agonizantes e desalojar pelo voto, em 2014, anacrônicos e corruptos dirigentes. Se tiverem êxito, embora parcial, os sacrifícios terão sido válidos e o Brasil estará a caminho de se transformar no País governado por representantes do povo.

* ALMIR PAZZIANOTTO PINTO É ADVOGADO, FOI MINISTRO DO TRABALHO E PRESIDENTE DO TRIBUNAL SUPERIOR DO TRABALHO (TST)

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