A migração da violência

A taxa de homicídios no Brasil tem oscilado nos últimos 33 anos em torno de 27 vítimas/ano por grupo de 100 mil habitantes, quase três vezes (2,7) maior do que a considerada epidêmica por especialistas. A novidade, agora, é que a incidência maior de homicídios migrou dos maiores centros urbanos, antes tidos como excessivamente violentos, para cidades que eram encaradas como pacatas, principalmente no Nordeste. Enquanto tais índices caíram 80% em São Paulo (a terceira capital mais violenta do País em 1999 é hoje a menos violenta, com 13,5 por 100 mil) e no Rio, alcançaram níveis assustadores em capitais nordestinas.

O Estado de S.Paulo

23 Julho 2013 | 02h06

Em 2.267 municípios (38,9% do total) não foi registrado nenhum homicídio em 2011. Mas 15 superaram os 100 homicídios por 100 mil habitantes em 2011:6 de Alagoas (Arapiraca, Maceió, Marechal Deodoro, Pilar, Rio Largo e São Miguel dos Campos); 3 da Bahia (Simões Filho, Mata de São João e Porto Seguro); 3 do Pará (Ananindeua, Marabá e Marituba); 2 do Paraná (Campina Grande do Sul e Guaíra); e 1 da Paraíba (Cabedelo).

Os números obtidos em Salvador ilustram à perfeição a troca da vida pacata de antigamente pela rotina de violência. Em 1999, a capital da Bahia era a área metropolitana mais tranquila do Brasil, com 7,9 homicídios por 100 mil habitantes. Em 12 anos, foi para o terceiro lugar entre as mais violentas de todas, com taxa de 69 por 100 mil soteropolitanos. A capital alagoana é outro exemplo dessa mudança radical: em 12 anos, Maceió pulou da 10.ª colocação para a 1.ª entre regiões metropolitanas, chegando ao índice de 111,1, sexta taxa mais alta entre todos os municípios.

E a média geral de homicídios representa apenas a metade da incidência da violência contra jovens entre 15 e 24 anos de idade: de 42,4 por 100 mil habitantes em 1996, ela subiu para 54,8 em 2012. Em 3.638 municípios (65,4%, dois terços do total), nenhum homicídio juvenil foi registrado. Em contrapartida, nos municípios em que ocorreram homicídios juvenis, as taxas são muito mais alarmantes. Em Maceió, foi alcançada a impressionante marca de 288,1 por 100 mil jovens entre 15 e 24 anos, enquanto 150 pessoas dessa faixa foram assassinadas em João Pessoa (PB) e Vitória (ES).

Esses dados assustadores fazem parte de um levantamento que vem sendo feito desde 1980 pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, que acaba de lançar a publicação intitulada Mapa da Violência 2013: Homicídios e Juventude no Brasil, com o apoio da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) e do Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos (Cebela). A principal fonte de dados usados para o estudo foi o Sistema de Informações sobre Mortalidade (Sim), do Ministério da Saúde. Os números para comparação internacional foram conseguidos no Sistema de Informações Estatísticas da Organização Mundial da Saúde. Em três decênios de pesquisa, 1.145.908 brasileiros foram assassinados, entre os quais 407.169 jovens.

Esse quadro inaceitável sob qualquer ponto de vista fica ainda pior quando comparado com o de 95 países analisados no documento. A taxa média brasileira em 2010, de 27,5 homicídios por 100 mil habitantes, foi 274 vezes maior do que a de Hong Kong e 137 vezes superior às de Japão, Inglaterra e País de Gales. Quando a comparação se limita à morte violenta de jovens, os números são ainda mais absurdos: a média brasileira é 547 vezes superior à de Hong Kong e 273 vezes superior às de Inglaterra e Japão.

Segundo Jacobo, as principais causas desta migração da violência dos grandes centros para cidades menos populosas são a abertura de novos polos de desenvolvimento em lugares com mecanismos de segurança muito precários, a proximidade da fronteira, o turismo predatório e a transferência das metrópoles para o interior de quadrilhas do crime organizado, tráfico de drogas e milícias.

Esse estudo fornece informações valiosas para as autoridades usarem o aparelho repressivo do Estado para impedir que essa epidemia continue levando dor e luto para todo o território nacional.

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