A missão pedagógica de Lula

Numa das duas passagens de ressonância literária de seu discurso de posse - a outra foi a referência à "falsa leveza da seda verde e amarela" da faixa presidencial -, a presidente Dilma Rousseff disse que, sob a liderança de Lula, "o povo brasileiro fez a travessia para uma outra margem da história". Já o ex-presidente se recusa ostensivamente a fazer a travessia para a outra margem do poder e emite repetidos sinais de que poderá tornar mais pesado para a sua afilhada política o exercício do cargo simbolizado pelo ornamento com as cores nacionais.

, O Estado de S.Paulo

04 Janeiro 2011 | 00h00

É fato que a relação entre ambos desafia a imagem convencional da ascendência do criador e da submissão da criatura. O respeito de Lula pela técnica que só veio a conhecer na transição do governo Fernando Henrique para o dele é comparável à admiração da agora presidente pelo antecessor de quem foi a diretora executiva da cúpula federal. Além disso, entrelaça-os uma corrente de afeto não menos autêntica do que as diferenças de temperamento que possam haver entre esse político emotivo e intuitivo e essa administradora rigorosa e cerebral. Lula e Dilma, por fim, estão sendo sinceros quando advertem que ninguém arrancará deles uma crítica ao outro.

Mas Lula precisaria ser feito de outra argamassa - e outras deveriam ser as circunstâncias - para assumir a sua nova condição e desencarnar do Planalto, cortando pela raiz as previsões de que será tutor de Dilma, ou mesmo copresidente, e ainda com direito assegurado à recandidatura em 2014. Mencionam-se a argamassa e as circunstâncias porque a paixão de Lula pelo protagonismo político, em vez de ser saciada, só fez aumentar, exponencialmente, com as delícias do poder e o desfrute de uma popularidade sem paralelo no mundo. Ele é mesmo "o cara", como disse Obama. Com um pormenor: o cara não perde oportunidade para insuflar a devoção que o cerca.

Foi exatamente isso que fez nos primeiros momentos de sua vida de ex-presidente. Primeiro, ao lançar-se à multidão assim que terminou de descer a rampa do palácio, para mais um banho de povo e mais um jorro de choro. Se tivesse a intenção de mostrar cruamente à sucessora quem é quem no coração da massa, não teria feito outra coisa. Mais tarde, repetiu o script ao subir no palanque montado para ele pela companheirada de São Bernardo de Campo, onde passou a morar. Na exótica companhia do presidente do Senado, José Sarney, que tinha pedido para levá-lo para casa, Lula tornou a ressaltar que deixou a Presidência, mas não a política, e tornou a falar da África e da América Latina, primeiros objetivos da "missão pedagógica" que pretende desempenhar: ensinar a governar.

Mas aí deixou escapar o objetivo prioritário dessa missão: "Quero continuar aqui dentro do Brasil ajudando a companheira Dilma. Quando ela me chamar, ou melhor, quando ela me convocar, estarei à disposição para ajudar a Dilma (?), para ajudar os governadores do PT." Horas antes, no parlatório do Planalto, a presidente dissera que "Lula estará conosco". E emendou, com calor e elegância: "Sei que a distância de um cargo nada significa para um homem de tamanha grandeza e generosidade." Contraste-se o gesto com a falta de grandeza do oferecido ex-presidente, que praticamente intimou Dilma (e os governadores do PT) a convocá-lo - decerto para ensinar-lhes como se fazem as coisas.

A questão, porém, não está nos conselhos que Lula terá a dar aos seus orientandos. Está no aviso público de que deseja ser chamado. É claro que ele sabe que Dilma buscará a sua orientação em situações que a torne oportuna. Deve ter ouvido isso de viva voz de sua pupila. Se não quisesse fazer praça de sua influência e manter a sua popularidade em níveis incandescentes, teria se limitado a esbravejar contra as elites, como dispara a fazer, pavlovianamente, sempre que enxerga um palanque. Mais lulista até do que Lula, o seu ex-chefe de gabinete e agora secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, constrangeu a sua superiora com outra tirada do gênero. Numa entrevista à Folha de S.Paulo, embora ressalvasse, por dever de ofício, que "faremos um belíssimo governo e Dilma será reeleita", lembrou terem "o Pelé no banco de reservas". Cuide-se a titular!

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