A Moody's à espera de 2015

A decisão da agência Moody's de manter a classificação do Brasil neste ano pode representar uma dor de cabeça a menos para o governo, já pressionado pelo rebaixamento da nota de crédito anunciada pela Standard & Poor's (S&P). Mas nada permite interpretar a trégua oferecida pela Moody's como demonstração de confiança na atual administração. Não se espera grande mudança no cenário brasileiro até o fim de 2014, segundo o diretor responsável pela avaliação de crédito soberano do Brasil, Mauro Leos. O crescimento, acrescentou, deve ficar ao redor de 2%, enquanto a inflação permanecerá próxima de 6%. A tradução parece fácil e segura: as perspectivas são ruins e os números finais poderão ser um pouco piores que os do ano passado, mas o resultado geral dificilmente será muito mais negativo.

O Estado de S.Paulo

07 Abril 2014 | 02h07

Como grandes surpresas são dadas como improváveis, o ano de 2014 no Brasil está virtualmente liquidado para a agência, a julgar pelas declarações do diretor Mauro Leos. Outra implicação: do atual governo nada se espera, pelo menos até o fim do ano. Se nada extraordinário acontecer nos próximos meses, a próxima avaliação deverá ocorrer quando o novo governo tomar suas primeiras medidas e sua orientação econômica for conhecida.

Pode haver dúvida quanto à orientação efetiva a ser adotada, mas a lista mínima de tarefas para 2015 e provavelmente para os anos seguintes parece bem definida, segundo as palavras do analista. Quem assumir a administração federal terá de promover uma porção de ajustes para arrumar as contas públicas, conter a inflação e criar condições para um crescimento seguro. As mudanças deverão incluir uma nova política de preços para a Petrobrás. A transparência da política de preços, acrescentou, será importante para a classificação de risco do crédito brasileiro.

Em outras palavras, a lista de tarefas corresponde a uma ampla mudança dos padrões seguidos pelo governo nos últimos três anos e até agora mantidos pela presidente Dilma Rousseff e por seus principais auxiliares da área econômica.

A cobrança de transparência na política de preços de combustíveis vale também para as tarifas de eletricidade e, naturalmente, para os critérios de contabilidade fiscal.

Nenhuma das mágicas até agora usadas para maquiar o balanço das contas públicas envolve mistério para qualquer analista. Os técnicos das agências de classificação de risco podem dissertar sobre os truques da contabilidade criativa. Isso já foi mostrado pelos especialistas da S&P, quando justificaram a decisão de rebaixar a nota de crédito do País.

Os dirigentes da Moody's podem ter critérios diferentes daqueles seguidos pelos colegas da S&P para fixar notas e para definir os momentos de cada revisão. Mas a pauta de assuntos essenciais para a avaliação é essencialmente a mesma e o governo deveria levar em conta esse detalhe. Seria pelo menos uma exibição de prudência.

A expectativa para os próximos anos é ainda de crescimento baixo e inflação elevada, segundo o diretor da Moody's, e a avaliação dependerá basicamente de como o governo decida cuidar dos fundamentos da economia. Se o produto crescer apenas 1% por causa de um ajuste severo, a avaliação dará mais peso ao ajuste e será, portanto, positiva, segundo exemplificou o especialista.

Também isso a presidente deveria ter levado em conta desde o começo de sua gestão, mas o caminho escolhido foi outro e os resultados são indisfarçáveis. A orientação econômica seguida pelo atual governo - e herdada em boa parte do anterior - resultou em uma combinação de baixo crescimento, inflação elevada e resistente e deterioração tanto das contas fiscais quanto do balanço de pagamentos. A alegada prioridade à expansão do Produto Interno Bruto (PIB) fracassou em mais de um sentido. Não houve expansão maior em troca de inflação um pouco mais alta. O único resultado positivo tem sido o bom nível de emprego, mas à custa da criação de postos de trabalho de baixa qualidade e baixa produtividade, enquanto se acumularam as demissões na indústria. É essa uma política sustentável de emprego?

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.