A mortalidade no trânsito

O estudo sobre a mortalidade no trânsito no País constante do Mapa da Violência 2013 - um dos mais abrangentes e completos já feitos a respeito - não só confirma, com dados impressionantes, o que já se sabe sobre a verdadeira tragédia que se desenrola diariamente em nossas ruas e estradas, como chama a atenção para mudanças importantes a respeito dos veículos responsáveis pela maior parte dos acidentes. As motos ocupam posição de destaque cada vez maior nesse quadro, uma realidade que as autoridades devem enfrentar.

O Estado de S.Paulo

25 Novembro 2013 | 02h15

O número de mortes em acidentes de trânsito no período de 31 anos, de 1980 a 2011, é assustador - 980.838 -, com uma média, de 31.640 por ano. É um número muito elevado, mas já bem conhecido. Mais importante é a taxa de 22,5 mortes por 100 mil habitantes, a mais alta desde que essas estatísticas começaram a ser feitas. Ela é praticamente a mesma registrada em 1996, antes da aprovação do Código de Trânsito Brasileiro no ano seguinte, que contribuiu para reduções razoáveis daquelas taxas. Os ganhos proporcionados pelo Código foram perdidos. Voltamos, 14 anos depois, ao que existia antes dele, o que é preocupante.

Outro dado igualmente preocupante é o papel desempenhado pelas motos nessa tragédia, da qual estão se transformando no principal protagonista. O número de motociclistas mortos em acidentes cresceu 932,1% no período de 15 anos, entre 1996 e 2011, saltando de 1.421 para 14.666. Para ter uma ideia mais clara do que isso significa, basta comparar esses números com os referentes aos usuários de outros veículos e os pedestres no mesmo período: motoristas e passageiros de carros, crescimento de 72,9% (de 7.188 para 12.429 mortos); e ciclistas, 203,9% (de 620 para 1.884). No caso dos pedestres, houve diminuição de 52,1% no número de mortos (de 24.643 para 11.805). No total de mortos, o aumento foi de 22,6% (de 35.281 para 43.256).

O resultado dessa mudança no perfil dos acidentes é que, em 2011, motoristas e passageiros mortos representaram um terço do total de vítimas do trânsito. Em números absolutos, 14,6 mil do total de 43 mil mortos em acidentes eram motociclistas e usuários (em número bem menor) de triciclos.

O uso da moto se difundiu rapidamente por todo o País, sem que houvesse concomitantemente maiores cuidados das autoridades, tanto no que se refere à fiscalização como a campanhas de esclarecimento voltadas para os motociclistas sobre os riscos desse veículo. O número de motos no País era de 4 milhões em 2000, o que representava 13,6% do total de veículos. Em 11 anos, ele mais do que quadruplicou, pulando para 18,4 milhões, ou 26,1% do total. Na capital paulista, que tem a maior frota de motos do País, ela quase dobrou em sete anos, passando de 490.754 em 2005 para 962.239 em 2012.

Como diz o sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, "a motocicleta virou o carro dos pobres". É um meio de transporte barato, rápido e ágil, tanto nas grandes cidades, onde pode circular entre os carros, fugindo dos congestionamentos, como nas cidades menores e na zona rural, onde enfrenta com facilidade as condições adversas de ruas e estradas esburacadas. No Nordeste, já entrou para o folclore o quase desaparecimento do jegue, tão ligado a suas tradições rurais, desbancado pela moto.

O aumento e a melhoria da fiscalização, assim como um esforço de conscientização dos motociclistas sobre a forma correta de utilização desse veículo, não se impõem apenas por causa do crescimento vertiginoso do número de mortos e feridos em acidentes. Eles se justificam também por outro problema diretamente ligado a isso - o consumo cada vez maior de álcool e drogas pelos motociclistas, atestado por pesquisa feita pelo Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas de São Paulo - mais de 20% das vítimas de acidentes com motos estavam sob efeito daquelas substancias.

O problema das motos, que agrava a tragédia da mortalidade no trânsito, exige uma resposta urgente das autoridades tanto federais como estaduais e municipais.

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