A moto na tragédia do trânsito

As motos foram o principal responsável pelo aumento de acidentes com mortos no trânsito

O Estado de S.Paulo

23 Maio 2018 | 03h00

O aumento de 23% do número de mortos em acidentes de trânsito em 2017, em comparação com 2016, faz novamente soar o sinal de alarme para esse problema, que há muito se tornou uma das tragédias nacionais. Ele ocorre depois de cinco anos de queda, ou seja, desvaneceu-se a esperança de que, mesmo vagarosamente, o problema estava sendo resolvido. E o mais preocupante é que esse aumento tem causas que tornam a solução mais difícil do que era antes.

Como mostra reportagem do Estado, com base em dados do DPVAT – seguro obrigatório para vítimas de acidentes com veículos automotores –, o número de mortos nesse tipo de ocorrência no ano passado foi de 41.151, ante 33.547 em 2016, que já era altíssimo, mesmo depois de quedas seguidas, e dava ao Brasil o triste título de um dos campeões mundiais em mortes no trânsito. Ao contrário do de mortes, o número total de acidentes cobertos pelo DPVAT continuou caindo em 2017. Nos últimos três anos, ele caiu pela metade, de 763,4 mil em 2014 para 383,9 mil no ano passado.

Isso se explica pela forte recessão dos últimos anos, que reduziu a venda de veículos, e pela opção por motocicletas, mais baratas e acessíveis a grande número de pessoas que tiveram sua renda reduzida. Além de seu preço menor, as motos apresentam ainda a vantagem de serem veículos muito mais ágeis, permitindo circular entre os carros e, assim, abreviar o tempo gasto nos trajetos. Mas é também um veículo muito mais frágil e perigoso.

O resultado é que as motos foram o principal responsável pelo aumento de acidentes com mortos. Elas se envolveram em 285.662 acidentes e foram responsáveis por 74% das indenizações pagas pelo DPVAT em 2017. Como elas representam apenas 27% da frota nacional de veículos, tem-se uma ideia da sua alta periculosidade nas condições em que operam.

Enfrentar o problema das motos é particularmente difícil, como reconhecem os especialistas. Sua ampla difusão começou muito antes da recessão. Na Região Nordeste, as motos ficaram famosas até mesmo por terem conseguido substituir quase inteiramente o jegue, secular meio de transporte na zona rural. Nas grandes cidades de todo o País, além de meio de transporte, tornou-se com os motoboys um importante elemento do sistema de entrega de encomendas e pequenas cargas.

O aumento da fiscalização sobre as motos é apontado por especialistas como providência indispensável para aumentar a segurança dos condutores. Carlos Alberto Bandeira Guimarães, professor do Departamento de Transportes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), chama a atenção para o problema também nas cidades do interior, especialmente do Norte e Nordeste, “onde é comum ver cenas de pessoas dirigindo motocicleta de chinelos, sem capacete e às vezes até sem documento de habilitação”. Dirceu Rodrigues Alves, diretor da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego, também insiste na atenção a ser dada a essas regiões.

O problema não é menor nas grandes cidades, nas quais, ao contrário do que acontece com outros veículos, a melhora do sistema viário não tem grande relevância para a segurança das motos. Nelas fica mais evidente que, além da fiscalização, outro elemento ainda mais importante é a educação dos condutores, aspecto até agora negligenciado pelo poder público. Como de resto acontece também com os motoristas de carro, ônibus e caminhão.

O exemplo da capital paulista, cidade que tem a maior frota de todos tipos de veículos automotores do País, é ilustrativo desse descaso. Aqui, fiscalização tem se confundido quase exclusivamente com eficiência da máquina montada para multar, enquanto a educação dos condutores merece no máximo campanhas esporádicas de esclarecimento, embora ela deva ser, como manda a lei, um dos destinos dos recursos milionários das multas. A tragédia do trânsito, hoje centrada nas motos, exige mudança radical, que leve a dar à educação a atenção que ela merece.

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