A ''''murdoquização'''' do WSJ

Há mais tempo do que a memória alcança os jornais não publicavam notícia tão má como a que saiu no mundo inteiro na última quarta-feira - sobre a própria imprensa. Trata-se do anúncio de que foi consumada, afinal, a aquisição do controle acionário do grupo americano de mídia Dow Jones, que edita o Wall Street Journal (WSJ), pelo magnata Rupert Murdoch. A notícia é má e agourenta para a imprensa, em crise no mundo inteiro, precisamente por serem quem são o jornal e o personagem que, depois de quatro meses de negociações, acabou vencendo os escrúpulos da família Bancfrot, proprietária da companhia há mais de um século, com a sua oferta de US$ 5 bilhões. O WSJ, considerado com razão "a bíblia dos homens de negócios", não é apenas o mais completo diário especializado em economia e finanças do mundo, em que pese a indiscutível qualidade de seu principal rival, o britânico Financial Times. Duas outras características notáveis distinguem o Journal, como é comumente chamado no circuito da mídia. A primeira é o alto padrão de suas reportagens - que estão longe de se restringir ao universo da atividade produtiva e do dinheiro. As suas matérias sobre política nacional e assuntos internacionais competem rotineiramente com as do New York Times - ainda a referência planetária do jornalismo de qualidade -, embora as deste sejam mais numerosas e variadas. A segunda característica é o seu padrão de rigorosa distinção entre informação e juízo de valor. Ela complementa a proverbial barreira - própria das publicações preocupadas com a ética e o respeito ao público - entre "Estado" (os interesses negociais das empresas editoras e os de seus anunciantes) e "Igreja" (os critérios estritamente jornalísticos na abordagem dos fatos). No Journal, a compartimentalização entre a página editorial e as páginas do noticiário é sagrada. Por exemplo, nenhum grande jornal americano o superou em matéria de apoio irrestrito à aventura iraquiana do governo Bush. Nem por isso, no entanto, o seu corpo de profissionais deixou de noticiar e publicar artigos contundentes e bem fundamentados sobre os resultados catastróficos dessa aventura. Já a trajetória do empresário australiano Rupert Murdoch, de 76 anos, é a prova viva de que o que ele entende por jornalismo é a antítese do que pratica o WSJ, com uma agravante devastadora. Ele não apenas usa despudoradamente o seu império de mídia como gazua para abrir portas para seus negócios, interferindo com mão pesada nas decisões de seus editores sobre o que e como publicar, como não faz a menor restrição ao jornalismo de esgoto, desde que seja lucrativo.Muito se fala do seu direitismo. Mas isso não o impediu de aceitar mansamente a censura do governo comunista chinês sobre, entre outras coisas, o noticiário de violações de direitos humanos no país, transmitido pela Sky News Television de sua propriedade. Com isso, vá lá o jogo de palavras, fez negócios da China com o governo comunista de Pequim. O homem, pode-se dizer, faz qualquer negócio, desde que seja bom para as contas da News Corporation, o seu conglomerado multinacional de jornais, revistas, emissoras de televisão, editoras de livros, estúdios cinematográficos, sites na internet, etc. Como publisher que desdenha do termo integridade, não lhe passará jamais pela cabeça deixar que o relato honesto dos fatos atropele os seus interesses empresariais. Os executivos dos órgãos de mídia que ele adquire aprendem num abrir e fechar de olhos que ou se dobram às "verdades" e gostos do novo patrão ou pedem as contas. Murdoch tem um faro como que inato para tudo aquilo que a cultura de massa tem de especialmente degradante - e sabe como ninguém faturar alto com as emoções baratas instigadas pelo sensacionalismo, o escândalo, a vulgaridade, a pornografia. Na mídia impressa, o seu carro-chefe é o abominável tablóide londrino The Sun. Com 3 milhões de exemplares, é o mais lido diário de língua inglesa do mundo. Murdoch é sinônimo de "tabloidização", o que designa menos o formato de um jornal do que a sua indigência ética e jornalística. E "murdoquização" é o desfiguramento que ele imprime aos jornais que captura, como foi o caso do outrora venerável Times de Londres. Será de espantar se outra for a sorte do WSJ.

O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2005 | 00h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.