A nova face do Brasil

Num país onde a mudança tem sido uma constante há pelo menos 7 décadas, é apenas normal que os resultados de cada recenseamento sejam aguardados com mais interesse que os anteriores, de 10 anos atrás. Ainda assim, a expectativa em torno do que revelará o 12.º Censo Demográfico da história nacional, iniciado domingo pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), parece mais justificada desta vez.

, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2010 | 00h00

A explicação está na aceleração e amplitude das transformações vividas pela população neste primeiro decênio do século 21. Uma combinação excepcional de estabilidade macroeconômica com aquecimento da demanda global e a implantação de ambiciosas políticas sociais permitiram a dezenas de milhões de brasileiros migrar de classe de renda, o que se refletiu no seu padrão de gastos, hábitos de consumo, atitudes e condições de vida em geral. Para não retroceder ainda além no tempo, o Brasil mudou mais e para melhor entre 2000 e 2010 do que entre 1991 e 2000.

Para captar essa metamorfose e os seus efeitos para a fisionomia do País, também o IBGE está mais apetrechado do que antes. Ampliou-se de tal modo o escopo dos questionários do Censo - com um mínimo de 37 itens a serem cobertos e um máximo de 108, quando for o caso -, que o chamado retrato do Brasil promete ser uma mina de informações. Sempre algo fica de fora, ou porque o custo adicional não compensaria a inclusão (o Censo custará cerca de R$ 1,7 bilhão) ou porque oneraria além do razoável a paciência do entrevistado. Talvez até se possa dizer que o que o IBGE deixará de perguntar não vale a pena saber.

Este ano, nos 58 milhões de domicílios que os 192 mil recenseadores pretendem visitar em 5.565 municípios - além dos emigrantes a serem contados no exterior - os respondentes dirão, pela primeira vez, se têm renda derivada de programas sociais, se entre os moradores há cônjuges do mesmo sexo, se falam línguas indígenas, se têm motocicletas, quanto tempo gastam para ir até o lugar de trabalho ou de estudo, se têm certidão de nascimento, se vivem em habitações coletivas, como penitenciárias, entre outras coisas. O levantamento incluirá ainda dados sobre o entorno das moradias (calçamento, iluminação pública, esgoto a céu aberto e depósitos de lixo).

O Censo, como se sabe, é a principal fonte de informações dos governos para a definição de políticas públicas, além de balizar a distribuição do Fundo de Participação dos Municípios e orientar a representação parlamentar dos Estados e municípios. As forças sociais sabem que a sua capacidade de influir nas leis e programas de seu interesse depende da sua expressão demográfica e condições correlatas captadas pelo recenseamento. Uma de suas funções, lembra o ex-presidente do IBGE Simon Schwartzman, é "classificar pessoas de diferentes maneiras, gerando expectativas de direitos".

Exatamente por isso, pelo menos desde o Censo passado grupos étnicos lançam campanhas para que os entrevistados "assumam" o que seria a sua presumível identidade. Os movimentos racialistas incentivam as pessoas a se declararem negras (em vez de pardas, por exemplo). Em 2000, negros e pardos somavam 47% da população. O IBGE oferece 3 outras opções de "cor ou raça": branca, amarela e indígena. O formato do Censo, por sinal, resulta de uma negociação aberta, com a conciliação de demandas diversas a se somarem aos itens clássicos - idade, sexo, estado civil, religião, níveis de educação e saúde, emprego e condições do domicílio.

Alguns resultados não surpreenderão. É o caso de tendências demográficas consolidadas, como a redução da mortalidade infantil e da fecundidade (número de filhos por mulher), o aumento da expectativa de vida e da proporção de idosos numa população que cresce à razão de 1,5% ao ano e que acaba de ultrapassar a marca de 190 milhões. "O Censo prepara o País para a próxima década", resume o presidente do IBGE, Eduardo Nunes. Os brasileiros só têm a ganhar acolhendo os recenseadores e respondendo com a verdade ao que indagarem.

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