A novela dos semáforos

Seu mais recente capítulo são os dados que mostram grande aumento dos casos de semáforos avariados por roubo de acessórios ou atos de vandalismo

O Estado de S.Paulo

12 Agosto 2018 | 03h00

A novela dos semáforos – um daqueles problemas crônicos que rotineiramente atormentam os paulistanos, tal como as enchentes e os buracos das ruas, para citar apenas os mais conhecidos – continua. O seu mais recente capítulo são os dados que mostram grande aumento dos casos de semáforos avariados por roubo de acessórios ou atos de vandalismo. Algo que vem agravar ainda mais o problema principal, que é o fato de o trânsito da capital ser regido por um sistema ao mesmo tempo ultrapassado e de manutenção deficiente.

O total de semáforos avariados por aqueles dois motivos dobrou no primeiro semestre deste ano (1.034 ocorrências) em comparação com o mesmo período de 2017 (516). A maior parte delas, 711, é de roubo de fios de cobre que conduzem energia aos equipamentos, que chegaram a 32 quilômetros de extensão, o que dá uma ideia da dimensão desse tipo de ação criminosa. As outras 323 ocorrências são de quebra intencional ou roubo de outras partes dos semáforos, como as caixas metálicas que contêm o equipamento que determina o tempo de sinalização das luzes verde, amarela e vermelha.

Os 1.034 casos registrados neste ano já superam os 577 casos de roubo de fios e 184 de vandalismo do ano passado. O prejuízo é estimado em R$ 8 milhões pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), sem contar o maior deles, que são os danos causados ao já difícil trânsito de São Paulo.

O aumento desses dois tipos de ocorrências é agravado pelo fato de serem eles coisa antiga, o que demonstra a incapacidade ou a falta de determinação, tanto das autoridades municipais como da polícia, de combater com firmeza essas ações criminosas. Ou as duas coisas. O assalto a todos os equipamentos que contêm fios de cobre, especialmente semáforos, vem de longe. Para citar apenas uma estatística mais recente, mas igualmente chocante, levantamento feito pela CET e divulgado em meados de 2016 indicou que em média era registrado um caso por dia de semáforo inoperante por roubo de fio de cobre ou vandalismo.

O quadro é completado por dado impressionante de outro levantamento, este feito por reportagem do Estado (19/08/2017), com base em informações da Prefeitura, que considera todos os casos possíveis de avaria: naquele ano, dois em cada três semáforos já haviam quebrado ao menos uma vez, deixando cruzamentos sem sinalização. Foram afetados por razões diversas 4.312 dos 6.399 semáforos. Em resumo, seja por falta de manutenção adequada, seja porque se trata de equipamentos em sua maioria ultrapassados e vulneráveis, seja por roubo de peças ou vandalismo, o sistema funciona precariamente.

As soluções para os dois problemas responsáveis por essa situação, que prejudica seriamente o trânsito, são óbvias. No que se refere aos roubos e ao vandalismo, é espantoso que a Prefeitura tenha demorado tanto para lançar mão – se é que de fato está fazendo isso, como afirma – dos recursos de que dispõe para proteger os equipamentos e dificultar o acesso a eles de ladrões e vândalos. O mesmo se pode dizer da polícia: se é verdade que não se pode exigir dela que vigie milhares de semáforos, não é menos verdade que o efeito demonstração de ações localizadas e repetidas – a maior parte dos crimes ocorre no centro – produz bons resultados.

Quanto ao mais importante, que é a modernização e ampliação do sistema – com o aumento do número de faróis inteligentes, que controlam melhor o fluxo de veículos –, salta aos olhos e causa indignação o descaso de sucessivos governos. Afinal, esse seria um investimento relativamente barato, tendo em vista o benefício que traz para a melhoria do trânsito – um ganho estimado por especialistas em 20%. Nenhuma outra ação – abertura de novas vias e melhoria do transporte coletivo para levar motoristas a deixar os carros em casa – apresenta essa relação custo-benefício.

Logo saberemos se a solução desejada pelo atual governo – a entrada da iniciativa privada, por meio de uma Parceria Público-Privada (PPP) – vai funcionar.

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