A ocupação do Rio de Janeiro

Para o bem da moralidade pública e para o resgate da esperança dos cidadãos, Sérgio Cabral não deve ser beneficiado por nenhum tipo de colaboração

O Estado de S.Paulo

13 Abril 2017 | 03h03

Na manhã do dia 28 de novembro de 2010, um domingo, 800 soldados da Brigada de Infantaria Paraquedista do Exército, 300 agentes da Polícia Federal (PF) e 1,3 mil homens das Polícias Civil e Militar (PM) – apoiados por veículos blindados do Exército, da Marinha e do Batalhão de Operações Policiais Especiais da PM (Bope) – foram mobilizados para a ocupação do Complexo do Alemão, o maior conjunto de favelas do Rio de Janeiro e um dos mais violentos entrepostos de drogas do Estado.

A operação para instalar naquela localidade uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) foi recebida com um misto de euforia e esperança pelo povo fluminense – sobretudo carioca –, que acompanhava ao vivo a movimentação das tropas e a fuga dos traficantes como o epílogo de um longo período de violência e medo.

A invasão do Complexo do Alemão pelas forças do Estado coroava o governo de Sérgio Cabral, reeleito em primeiro turno havia pouco mais de um mês. O que não se sabia é que, naquele momento, o mesmo governador que conquistara a confiança de 66% dos eleitores fluminenses liderava o seu próprio bando em outro tipo de ocupação, a tomada de cada repartição da administração pública estadual para benefício próprio.

Quando parecia que nada mais envolvendo o ex-governador e sua camarilha pudesse surpreender a opinião pública, mais um triste episódio da debacle do Rio de Janeiro vem à tona. Um esquema de corrupção na Secretaria da Saúde e no Instituto de Traumato-Ortopedia (Into) foi responsável pelo desvio de R$ 300 milhões dos cofres públicos do Estado, segundo informações do procurador federal Rodrigo Timóteo, da força-tarefa da Operação Lava Jato no Rio. A soma pode ser ainda maior. Nem todos os contratos para aquisição de equipamentos médico-hospitalares firmados pelos envolvidos já tiveram sua lisura devidamente apurada.

O caso foi revelado pela Operação Fatura Exposta, deflagrada pela Polícia Federal como desdobramento da Lava Jato no Rio. Junto com a Calicute e a Eficiência, trata-se de mais uma das operações da PF que vêm desarticulando o amplo esquema de corrupção comandado pelo ex-governador Sérgio Cabral, preso desde novembro do ano passado.

O estarrecimento diante da vultosa pilhagem de recursos públicos levada a cabo por Cabral atinge até experimentados agentes públicos acostumados a lidar com investigações de crimes financeiros. O procurador da República Eduardo El Hage sustentou que as autoridades irão provar que o ex-governador Sérgio Cabral “roubou em todas as áreas do governo”. Aos olhos do Ministério Público, nenhum setor da administração pública do Rio parece ter escapado incólume à sanha de Cabral e seus asseclas.

Na operação Fatura Exposta, a PF prendeu o ex-secretário estadual de Saúde do Rio Sérgio Côrtes – um dos convivas presentes no famoso “jantar dos guardanapos” em Paris –, os empresários Miguel Iskin, presidente da Oscar Iskin, e seu sócio, Gustavo Estellita Cavalcanti Pessoa. Eles são acusados de fraudar licitações para compra de próteses e aparelhos médico-hospitalares.

Segundo o Ministério Público Federal, “ao tomar posse como chefe do Executivo estadual do Rio de Janeiro, em 1.º de janeiro de 2007, Sérgio Cabral instituiu porcentual de propina de 5% de todos os contratos administrativos celebrados com o Estado”. Apenas nesta ramificação do esquema, os investigadores estimam que o ex-governador tenha recebido R$ 16,4 milhões em propina.

A falência do Rio de Janeiro e o lamentável reflexo na qualidade da prestação de serviços públicos essenciais à população – como segurança, saúde e educação – são o retrato instantâneo dos males causados pelo ex-governador Sérgio Cabral ao Estado. Pelo que as investigações revelaram até o momento, eles ainda poderão ser sentidos por anos à frente. Para o bem da moralidade pública e para o resgate da esperança dos cidadãos fluminenses, Cabral não deve ser beneficiado por nenhum tipo de colaboração premiada. Deve pagar integralmente por seus crimes.

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