A paz possível na Colômbia

O governo colombiano e a narcoguerrilha marxista Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) anunciaram na quarta-feira que todas as pendências para a implementação do acordo de paz alcançado recentemente em Havana foram superadas

O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2016 | 03h10

O governo colombiano e a narcoguerrilha marxista Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) anunciaram na quarta-feira que todas as pendências para a implementação do acordo de paz alcançado recentemente em Havana foram superadas. “Hoje começa o fim do sofrimento, da dor e da tragédia da guerra”, celebrou o presidente Juan Manuel Santos, em pronunciamento pela TV, com pompa condizente com o possível desfecho da mais longa guerra civil da América Latina. “Abramos juntos a porta para uma nova etapa de nossa história”, acrescentou Santos, demonstrando confiança, mas, ao mesmo tempo, prudência.

A “porta” para a paz, à qual se referiu o presidente, ainda tem de ser aberta – e isso depende do nível de compromisso de todas as partes envolvidas e da disposição dos cidadãos de aceitar os termos desse acordo. Portanto, ainda há muitas incógnitas a separar as boas intenções do efetivo sucesso do acordo de paz.

Nos mais de 50 anos de guerra, cerca de 220 mil pessoas morreram, 45 mil desapareceram e 6,9 milhões foram expulsas de suas casas, sem falar das pessoas sequestradas pelas Farc – que fizeram desse crime um meio de arrecadar recursos para manter-se na ativa e enfrentar as forças militares do país. A guerrilha, ademais, tornou-se responsável por mais da metade do tráfico de drogas na Colômbia. É essa formidável máquina delinquente que precisa ser desmontada e que, juram seus líderes, será transformada em partido político. “Acabou a luta com armas; agora, vamos à batalha de ideias”, comemorou Luciano Marín Arango, aliás “Iván Márquez”, um dos negociadores das Farc.

Mas não será nada fácil. Além da manutenção do cessar-fogo anunciado pelo governo e pelas Farc – algo que não se deve considerar garantido, porque não foram poucas as vezes em que acordos semelhantes foram rompidos no passado –, será necessário reduzir a possibilidade de os ex-guerrilheiros se aliarem ao crime organizado em vez de aderirem à política. Muito bem treinados e testados em combate, eles representam risco potencial à paz social. Por essa razão, os negociadores do governo entendem que será necessário pagar uma espécie de ajuda de custo a esses egressos das Farc, para evitar o “risco de metástase da violência nas cidades”, como alertou Humberto de La Calle, que fala em nome do presidente Santos.

Não se sabe quanto nem em que condições essa ajuda de custo será dada, mas é possível imaginar a reação negativa dos cidadãos, já ressabiados com diversos pontos do acordo, em especial aqueles que abrandam a punição para os crimes cometidos pelas Farc. É esse tipo de concessão que alimenta o discurso dos ferozes opositores do acordo, liderados pelo ex-presidente Álvaro Uribe – para quem as Farc só aceitaram negociar depois que foram enfraquecidas no campo de batalha durante seu governo. “Eles não vão passar nem um único dia na prisão e vão ganhar o direito de ter representação política. Isso afronta o Estado de Direito”, disse Paloma Valencia, senadora uribista.

Como o documento tem de ser submetido a referendo, previsto para o dia 2 de outubro, não é pequeno o risco de que ele venha a ser rejeitado nas urnas, a despeito do favoritismo que as pesquisas dão para o “sim” ao acordo. Paira no ar a sensação de que os guerrilheiros ganharam muito mais do que mereciam, depois de terem protagonizado um conflito que representa grave trauma para os colombianos.

O acordo também tem de ser submetido à aprovação dos guerrilheiros, numa reunião que ocorrerá nos próximos dias. Não é improvável que alguns deles, mais radicais, se recusem a endossar o documento. Ademais, é preciso saber se as Farc vão efetivamente entregar todas as armas e abandonar o narcotráfico, sua principal fonte de financiamento.

Como se vê, são muitos os desafios que estão à frente, e não se pode esperar que apenas uma canetada, por mais bem-intencionada que seja, tenha força suficiente para pôr o desejado ponto final na guerra colombiana.

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