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A penosa e lenta recuperação

Há outras explicações, que não a atuação do Banco Central, para a lentidão da retomada da economia

Claudio Adilson Gonçalez, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2019 | 05h00

No primeiro trimestre de 2017 o Brasil começou a sair da mais longa e severa recessão entre as nove identificadas pelo Comitê de Datação dos Ciclos Econômicos, da FGV, a partir de 1980. A contração da economia começou no segundo trimestre de 2014 e se estendeu até o quarto trimestre de 2016 (11 trimestres). Nesse período, o PIB registrou queda acumulada recorde de 8,6%.

A retomada tem sido muito lenta. Nos sete trimestres seguintes ao fundo do poço, o PIB brasileiro cresceu apenas 3,3%. No episódio recessivo de 1981/1983, que durou nove trimestres, o PIB teve queda de 8,5%, mas no sétimo trimestre após o início da retomada já acumulava expansão de 9,3%. O outro ciclo de contração, comparável ao de 2014/2016, foi o de 1989/1992. Durou também 11 trimestres e o PIB registrou redução de 7,7%. Mas, após sete trimestres de recuperação, o crescimento acumulado alcançava 8,4%.

Alguns analistas culpam o Banco Central, que teria sido muito lento na redução do juro básico (Selic). Não concordo. A queda gradual da Selic, iniciada em outubro de 2016, acompanhou a convergência das expectativas de inflação para a meta. Atingiu o patamar atual de 6,5% ao ano, em março de 2018. O juro real já estava abaixo de 4% ao ano, nível considerado de equilíbrio por boa parte dos economistas, desde o terceiro trimestre de 2017, há mais de um ano, portanto. Temos de encontrar outras explicações.

A primeira é a ainda elevada incerteza. O Índice de Incerteza da Economia Brasileira (IIE-Br), da FGV, em dezembro de 2018, estava próximo à média de 2015, pior ano da recessão e em pleno governo Dilma. Certamente, o desajuste das contas públicas está entre as principais causas disso. Claro, desde a eleição de Bolsonaro as expectativas melhoraram, mas ainda é muito cedo para isso se refletir na retomada dos investimentos.

Outro fator é a construção civil, aqui incluída a pesada e a imobiliária. Após cinco trimestres do final das duas recessões anteriores, já mencionadas, o PIB da construção já crescia expressivamente. No atual ciclo, continuava caindo, até meados de 2018. O peso direto desse setor é pequeno (cerca de 4% no PIB), mas os efeitos indiretos são imensos. É altamente intensivo em mão de obra e tem enorme efeito multiplicador. Dos 3 milhões de empregos com carteira assinada destruídos no período 2014/2016, 1 milhão foi na construção civil. Esse foi o segmento da economia brasileira mais atingido pelos desacertos dos governos Lula e Dilma. Sua reorganização e reerguimento leva tempo.

A Operação Lava Jato também faz parte da explicação. É claro que ela ajudará a tornar o Brasil um país melhor e com maior potencial de crescimento no futuro. No entanto, enquanto estão se desenvolvendo, programas dessa natureza representam quebras bruscas das “regras do jogo” e reduzem o crescimento. Foi assim, por exemplo, na Operação Mani Pulite, na Itália. Um interessante estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) dá suporte a essa hipótese. Trata-se do trabalho The Measurement and Macro-Relevance of Corruption: A Big Data Approach, que pode ser encontrado aqui.

Finalmente, há fatores externos. Além das desacelerações das economias desenvolvidas e da China, a crise econômica na Argentina, que não para de se aprofundar, exerce papel crucial. Nosso grande rival futebolístico é também um dos mais importantes compradores de manufaturados exportados pelo Brasil, 20% em 2017, acima dos EUA. Em 2018, com a recessão, essa participação caiu para 16%.

Como se vê, são muitos os obstáculos a serem vencidos. Imaginem o que ocorrerá se o governo Bolsonaro frustrar as expectativas e fracassar no ajuste fiscal. Não é meu cenário, mas infelizmente é uma possibilidade.

*ECONOMISTA, DIRETOR-PRESIDENTE DA MCM CONSULTORES, FOI CONSULTOR DO BANCO MUNDIAL, SUBSECRETÁRIO DO TESOURO NACIONAL E CHEFE DA ASSESSORIA ECONÔMICA DO MINISTÉRIO DA FAZENDA

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