A pertinência de Hannah Arendt

Pensadora é considerada uma das maiores intérpretes do século 20

Marcos Guterman*, O Estado de S.Paulo

23 Setembro 2018 | 03h00

A pensadora alemã Hannah Arendt (1906-1975) é considerada uma das maiores intérpretes do século 20, mas suas ideias ainda conservam enorme pertinência ante o desafio de compreender o século 21. Em meio à ruína da tradição e à emergência da fragmentação política global, com a consequente desmoralização da democracia, Arendt vem em socorro dos que ainda acreditam na possibilidade de alcançar consensos por meio da negociação e do diálogo.

Nesse sentido, ao lidar com o terrível processo que levou uma parte do mundo civilizado a rejeitar a razão e a experimentar o totalitarismo, Arendt revela-se, em essência, uma pensadora “generosa” - termo com o qual a qualifica um de seus grandes discípulos e propagadores de suas ideias no Brasil, Celso Lafer.

Ex-chanceler, jurista e membro da Academia Brasileira de Letras, Lafer é conhecido por sua profunda familiaridade com a obra de Arendt, de quem foi aluno na Universidade Cornell em 1965, e produziu inúmeros textos a respeito da temática arendtiana. Uma seleção de alguns dos melhores momentos dessa produção está reunida no livro Hannah Arendt: Pensamento, Persuasão e Poder (Editora Paz e Terra), que chega agora à terceira edição, atualizando uma compilação iniciada em 1979. Nesse trabalho, Lafer ciceroneia o leitor pelos meandros das ideias de Arendt, e o faz de tal maneira que a sensação é de estar na mesma sala de aula onde o autor fruiu do conhecimento daquela extraordinária intelectual pública.

Mas o livro de Lafer, ao contrário do que pode sugerir, não é apenas um bom guia para os que pretendem se iniciar no pensamento de Arendt. Trata-se de trabalho relevante também para os que já estão embrenhados nos estudos arendtianos, pois oferece a esses leitores o olhar precioso de quem viveu a experiência de ser aluno de Arendt e de quem posteriormente, em sua rica vida pública, pôde aplicar na prática os ensinamentos daquela notável professora, ajudando a decifrar uma obra “polêmica, excepcionalmente criativa, não convencional, de difícil classificação”, como a descreveu Lafer.

Essas características da obra arendtiana são fruto da própria vida da pensadora, que não se enquadrava em nenhum rótulo, nem como mulher, nem como intelectual, nem como judia. Ela não aceitava ser vista como uma mulher excepcional, que estava a ocupar posições geralmente reservadas a homens. Quando se tornou a primeira mulher professora em Princeton, em 1959, conforme conta Lafer, gerou curiosidade sobre o que sentia a esse respeito - ao que ela respondeu, com sua habitual franqueza: “Não me perturba ser uma mulher professora porque estou bem acostumada a ser mulher”. Arendt tampouco se sentia à vontade em ser chamada de filósofa - preferia ser vista como cientista política. Por fim, sua condição de judia - não religiosa, enfatize-se - moldou sua independência intelectual, que para Arendt, conforme Lafer, era o melhor subproduto da marginalidade política dos judeus europeus. Tendo sido obrigada, por ser judia, a sair de sua Alemanha natal em razão do nazismo e refugiar-se na França e depois nos Estados Unidos, Arendt passou tempo considerável como apátrida, sentindo-se, portanto, livre para exercer o seu “pensar político” desvinculado de qualquer compromisso nacional.

Era entusiasta do selbst denken, o “pensar pela própria cabeça”, e talvez por esse motivo tenha sido tão mal compreendida por alguns de seus contemporâneos, que desprezavam quem não se submetesse ao formalismo acadêmico. No fundo, tratava-se de uma homenagem à autêntica liberdade humana, que só se manifesta em sua integralidade na esfera pública - o que, na visão de Arendt, é o cerne da política.

Talvez seja esse o aspecto da obra de Arendt que a torna tão pertinente nestes tempos de negação da política. Para Arendt, só é possível construir algo no mundo por meio da ação em conjunto, depois de alcançado o consenso entre os cidadãos num ambiente de total liberdade de informação - sem a qual não se pode tomar decisões nem fazer julgamentos. Esse consenso nunca pode ser definitivo. Tem validade apenas para o fim a que se propõe e nas circunstâncias em que foi articulado, tendo que ser reiteradamente negociado - o que garante a oposição. Quanto mais a sociedade dá a conhecer suas diferenças, menos as opiniões serão absolutas ou excludentes. Essa é a beleza da política.

Seu contrário é o espírito totalitário, que exclui quem representa o contraditório e impede que se faça o bom juízo sobre o Outro. Aquele considerado diferente é desde logo indesejável, sendo descartado não pelo que faz, mas pelo que é. O campo de concentração, no qual por definição não vigoravam os direitos humanos, pois aos prisioneiros era negada a condição humana, tornou-se o símbolo dessa ruptura - ali não há solidariedade de nenhuma espécie, apenas desolação, e tudo se torna possível, inclusive o genocídio.

Chega-se a esse ponto depois de um longo percurso de destruição da diversidade, processo que ganha impulso quando se renuncia à capacidade de imaginar o mundo de um ponto de vista alheio. Nada disso, enfatiza Arendt, tem que ver com poder político. Como mostra Celso Lafer, Arendt argumenta que o real poder político reside na capacidade de convencimento, que mobiliza a sociedade para determinados fins convidando-a a tomar decisões em conjunto, e não por meio da força e da coerção. Para Arendt, se é preciso violência, então não há poder. Por isso ela considera que a categoria central da política é o nascimento, isto é, a esperança da construção coletiva e democrática do novo, e não a perspectiva da morte, que gera medo e invoca o estado de natureza hobbesiano. Uma mensagem com esse espírito conciliador - e com a generosidade de que falou Lafer a respeito de Arendt - é vital nos tensos e polarizados dias que correm.

* JORNALISTA E HISTORIADOR

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