A Petrobrás contra o etanol

Mais um dado negativo foi acrescentado ao desastroso balanço da Petrobrás, com a divulgação, nessa terça-feira, dos números da agroindústria no primeiro semestre. A produção foi 3,9% menor que a de um ano antes, segundo o IBGE. Esse resultado geral é explicável principalmente pelo mau desempenho do setor de açúcar e álcool. Condições de tempo desfavoráveis prejudicaram a lavoura, mas a redução da safra de cana foi também consequência da contenção artificial de preços da gasolina, um grave desestímulo à indústria do etanol. A nova presidente da Petrobrás, Graça Foster, apontou claramente o erro da política de preços e prometeu buscar a paridade com as cotações internacionais.

O Estado de S.Paulo

09 Agosto 2012 | 07h48

Os números da agroindústria poderiam constituir um apêndice ao relatório financeiro da estatal. O quadro fica mais claro quando se decompõem os resultados. Os setores vinculados à agricultura têm mais peso no conjunto da agroindústria e apresentaram o pior desempenho, com produção 5,9% inferior à do primeiro semestre de 2011. O resultado foi menos ruim nos segmentos vinculados à pecuária. Estes produziram 5% menos que na primeira metade de 2011. Números muito piores aparecem quando se examinam a fabricação de derivados da agricultura. A queda geral foi de 7,3% em relação aos dados de um ano antes, mas esse dado ainda não mostra onde se concentraram os problemas.

A produção de açúcar cristal foi 38% menor que a de janeiro a julho de 2011. A de álcool diminuiu 28,5%. Redução da área plantada, seca no período de crescimento e excesso de chuvas na fase de colheita resultaram numa safra menor e atrasaram a moagem da cana. Mas o menor investimento no plantio deve-se também, como informa o comunicado do IBGE, "à menor demanda por álcool hidratado". Na maior parte dos Estados, segundo o texto, foi mais vantajoso abastecer os veículos com gasolina. Há também uma referência à crise econômica mundial como fator de desestímulo aos investimentos para renovação dos canaviais.

O prejuízo da Petrobrás foi em parte atribuído pelos dirigentes da empresa à valorização do dólar. Esse foi, sem dúvida, um dos fatores do mau resultado financeiro. Mas a explicação ficaria mais completa com uma referência ao aumento de importação de gasolina. Foi preciso importar mais combustível por causa da escassez de etanol - problema presente já há anos - e também da insuficiência da capacidade nacional de refino. O programa de construção de refinarias está atrasado e, além disso, os custos das obras têm superado amplamente aqueles previstos originalmente. O caso da Refinaria Abreu e Lima tem sido apontado pela presidente Graça Foster como um exemplo a ser evitado, pela gravidade dos erros. O primeiro deles foi a associação estritamente política com a PDVSA. Nem sequer um centavo foi pingado até hoje pela estatal controlada pelo caudilho Hugo Chávez.

Com o câmbio em torno de R$ 1,5 por dólar o desajuste do preço da gasolina no mercado interno ainda era disfarçável, comentou em São Paulo, num debate sobre energia, o presidente da Datagro Consultoria, Plínio Nastari. Com a depreciação do real a defasagem do preço tornou-se muito mais evidente e insustentável, acrescentou. Mas um grande estrago foi feito: preços artificialmente baixos da gasolina afetaram o mercado e prejudicaram a produção de cana e de etanol.

O setor sucroalcooleiro precisará de investimentos de R$ 130 bilhões para voltar a crescer e produzir etanol suficiente para uma participação de 50% na matriz de combustíveis, segundo o presidente interino da União da Indústria de Cana-de-Açúcar, Antônio de Pádua Rodrigues. Esse dinheiro seria necessário para a construção de cem novas usinas de produção exclusiva de álcool. Em 2010 o etanol representou 44,6% dos combustíveis utilizados no Brasil. No fim do ano passado a participação havia caído para 31,7%. Mas novos investimentos, ressalvou, vão depender de uma clara definição de políticas. Por enquanto, pode-se acrescentar, o próprio governo se mostra carente de ideias claras sobre seus objetivos.

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