A Petrobrás e os abutres

Abutres começam a rondar a Petrobrás, ainda viva e em condições de recuperação, mas em estado bastante precário para atrair a atenção de aves de rapina. Num esforço para organizar o ataque, o fundo americano Aurelius Capital Management convocou detentores de papéis da empresa para notificá-la por atraso na publicação do balanço do terceiro trimestre. Se a notificação for feita por 25% dos credores de bônus de uma determinada emissão, a estatal terá 60 dias para divulgar as demonstrações financeiras. Se estourar o prazo, poderá ser declarada em calote técnico. Nesse caso, terá de antecipar o pagamento de bilhões de dólares. Em mais um esforço para neutralizar essa ameaça, a Petrobrás anunciou a intenção de publicar o balanço, mesmo sem o aval de um escritório de auditoria, até 31 de janeiro. Poderá fazê-lo antes disso. A empresa já havia renegociado dívidas bancárias de US$ 7 bilhões, tentando ganhar algum tempo para a divulgação de suas contas.

O Estado de S.Paulo

04 Janeiro 2015 | 02h03

A Petrobrás já adiou duas vezes a publicação do balanço. Com a multiplicação de denúncias sobre a pilhagem da empresa, a PricewaterhouseCoopers (PwC), a firma de auditoria, recusou avalizar as contas. Com isso, evitou o risco de um dano importante à sua imagem e o perigo de um processo legal nos Estados Unidos. Mas a cautela da PwC foi apenas um dos impedimentos. A própria estatal se exporia a problemas muito graves, se divulgasse os dados contábeis antes de uma boa avaliação dos estragos acumulados em vários anos de bandalheira. Em resumo, a gestão petista conseguiu assustar os auditores e atrair os abutres.

Enquanto as aves permanecem a distância, dirigentes da empresa tentam melhorar sua imagem e torná-la menos vulnerável a novos ataques de corruptos e corruptores. Na segunda-feira passada, a diretoria anunciou a decisão de vetar o acesso de 23 grandes empresas a suas licitações. A lista inclui as maiores e mais conhecidas firmas brasileiras de engenharia, suspeitas de participação em cartel para a partilha de contratos bilionários com a Petrobrás. A relação foi elaborada, segundo o comunicado da estatal, com base nos depoimentos tomados durante a Operação Lava Jato.

A empresa informou também a suspeita de envolvimento da Fundação Petrobrás de Seguridade Social (Petros) nos fatos apontados pelos investigadores oficiais. A suspeita é baseada numa apuração independente conduzida por dois escritórios de advocacia contratados pela estatal.

Mesmo sem a ação ostensiva de abutres, a Petrobrás já foi amplamente prejudicada no mercado de capitais, com a desvalorização de seus papéis e o comprometimento de sua imagem. Durante o governo da presidente Dilma Rousseff a empresa perdeu mais de metade de seu valor de mercado - uma redução de cerca de R$ 200 bilhões. Sua ação, próxima de R$ 30 há quatro anos, foi negociada há poucos dias abaixo de R$ 10.

Sua nota de crédito já foi rebaixada e há ameaça de novo rebaixamento. A empresa enfrenta processos nos Estados Unidos por haver publicado informações duvidosas, isto é, sem mostrar os danos causados pela corrupção instalada em sua administração. O mais recente, movido pela prefeitura da cidade de Providence, capital do Estado de Rhode Island, menciona a presidente Dilma Rousseff e outras 11 figuras - autoridades e empresários - como "pessoas de interesse da ação". A notícia desse processo bastou para causar mais uma queda de 6% no valor das ações da companhia, no dia 26 de dezembro.

A ameaça dos fundos abutres poderá ser neutralizada nas próximas semanas, com a publicação do balanço do terceiro trimestre. Mas a mera atração de abutres deveria ser mais que suficiente - se isso ainda fosse necessário - para eliminar qualquer dúvida sobre os males causados à maior empresa brasileira pela gestão petista. Fundos abutres ganham dinheiro com papéis podres.

Ações e títulos de crédito apodrecem porque seus gestores cometem erros graves e se tornam indignos da confiança dos mercados. Os papéis e a imagem da Petrobrás podem ser ainda recuperados. Mas o primeiro a demonstrar respeito à empresa deve ser o governo. Faltou esse respeito durante o governo petista. Os abutres são uma consequência.

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