A Petrobrás reprovada

Espoliada, encabrestada politicamente e transformada em palco de um dos maiores escândalos da história republicana, a maior empresa brasileira, a Petrobrás, foi rebaixada mais uma vez por uma agência de avaliação de risco. Citando o alto endividamento, as perdas causadas pelo aumento do dólar e pelo controle dos preços de combustíveis e as prováveis dificuldades de recuperação nos próximos dois anos, a Moody's anunciou na terça-feira um novo corte da nota e a manutenção da perspectiva negativa. Essa perspectiva indica o risco de mais uma redução da nota, no próximo ano, se o endividamento continuar aumentando e se as condições financeiras da companhia se agravarem.

O Estado de S.Paulo

26 Outubro 2014 | 02h05

A avaliação negativa da Petrobrás envolve claramente uma reprovação da interferência política na fixação de preços dos combustíveis. Mantendo a orientação de seu antecessor, a presidente Dilma Rousseff tentou maquiar a inflação por meio do controle de preços dos derivados de petróleo. Como as cotações caíram recentemente no mercado internacional, o desalinhamento pode ter desaparecido, tornando dispensável - ou inviável - um reajuste. Mas as perdas de receita acumuladas em vários anos permanecem.

Com receita insuficiente e forçada a executar um enorme programa de investimentos, a Petrobrás aumentou sua dívida. O aumento da alavancagem - a relação entre a dívida e o capital próprio da empresa - já havia motivado em 2013 um rebaixamento da classificação pela Moody's. Na época, a Petrobrás já era apontada como a empresa mais endividada do mundo, proporcionalmente à sua geração de caixa.

Com a revisão recém-anunciada, a nota passou de Baa1 para Baa2, ainda dentro do grau de investimento, isto é, ainda com um selo de qualidade para captar financiamento. A empresa só perderá o grau de investimento, na escala da Moody's, se cair mais duas vezes - para o nível Baa3 e daí para a zona classificada como perigosa para os credores. Mas o rebaixamento é um sinal de alerta.

Na escala da Standard & Poor's (S&P), outra agência de avaliação de risco, a situação da Petrobrás é mais precária. Em março deste ano, a S&P cortou para BBB- as notas da Petrobrás e da Eletrobrás, para ajustar a posição das duas estatais à nova classificação do crédito soberano do Brasil. O nível BBB- é o mais baixo na faixa correspondente ao grau de investimento. Uma nova queda levará o Brasil e as empresas controladas pelo governo ao chamado grau especulativo.

O rebaixamento das empresas, nesse caso, resultou de uma avaliação negativa da política econômica e dos sinais dados pela presidente Dilma Rousseff. As perspectivas de baixo crescimento e de maior deterioração das contas públicas foram decisivas para a piora da nota do País.

Não se cogita no momento novo rebaixamento da classificação do Brasil, disse à Agência Estado a presidente para o Cone Sul da S&P, Regina Nunes. Mas dificilmente o País voltará a subir um degrau, para o nível BBB, "sem melhora real da dinâmica da dívida pública". Seja quem for o presidente eleito, o governo terá de cuidar simultaneamente, acrescentou, da retomada do crescimento econômico, do combate à inflação e do ajuste das contas fiscais.

As empresas de avaliação de risco limitam-se a apontar, em seus relatórios, os problemas visíveis, como o baixo crescimento, a inflação elevada, o mau estado das contas públicas e, no caso da Petrobrás, o endividamento e o desalinhamento dos preços. Podem indicar as possibilidades de agravamento da situação. Mas dificilmente avançam no exame das políticas seguidas pelos governos. Se o fizessem, teriam de apontar detalhes como o aparelhamento das estatais, a subordinação dessas empresas a objetivos pessoais e partidários e a amplitude da interferência em sua administração. Seria preciso mencionar os investimentos desastrosos, como a Refinaria Abreu e Lima, a política de conteúdo nacional, muitas vezes custosa e contraproducente, e, é claro, os atos de corrupção. Em alguns casos, o relatório acabaria parecendo um inquérito policial.

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