A piora das contas externas

Só o fato de as contas externas terem fechado 2014 com o pior resultado proporcional (em relação ao Produto Interno Bruto - PIB) desde 2001 e com o maior déficit em valor desde 1947, quando esses registros começaram a ser feitos, bastaria para comprovar que, também no front externo, a economia foi muito mal no último ano do primeiro mandato de Dilma Rousseff. É mais um item da pesada herança econômica que a presidente deixou para seu novo mandato e que se soma à inflação, prestes a romper o limite de tolerância da política de metas; à desastrosa política fiscal, que resultou num déficit primário cujo valor será conhecido nos próximos dias; e à estagnação. É um conjunto desalentador.

O Estado de S.Paulo

25 Janeiro 2015 | 02h06

O déficit nas transações correntes do Brasil com o resto do mundo - a conta inclui a balança comercial, os serviços, as transferências de renda e as transferências unilaterais - alcançou US$ 90,95 bilhões no ano passado, o pior resultado em valor desde que o País contabiliza essas operações. Em 2013, o déficit tinha sido de U$ 81,1 bilhões. A piora, portanto, correspondeu a 12%.

Examinar apenas os valores talvez não seja a maneira mais precisa de avaliar o tamanho do desastre, pois esse procedimento desconsidera a evolução da economia. Mesmo, porém, que se compare o déficit externo com o PIB, o resultado é ruim. Em 2014, o déficit correspondeu a 4,17% do PIB, de acordo com os cálculo do Banco Central (BC), o pior resultado desde 2001, quando ficou em 4,19%. É como se, na área externa, o País tivesse caminhado tanto ao longo do governo do PT (iniciado em 2003) para chegar ao mesmo lugar.

O ingresso de investimentos estrangeiros diretos (IEDs) tem evitado a piora dos resultados das contas externas. Esse capital, de grande importância para o crescimento da economia, continua a fluir para o País em volumes expressivos. No ano passado, eles totalizaram US$ 66 bilhões, um pouco abaixo do total absorvido em 2013, de US$ 67,5 bilhões.

Até há pouco, era um valor que assegurava a cobertura de boa parte do déficit em transações correntes, que, desse modo, não se transformava em fonte de preocupações. No entanto, dado o crescimento inesperado - que nem o BC o previa - do saldo negativo, o IED passou a cobrir uma fatia menor do déficit, de 72%. O restante foi financiado com capitais mais voláteis, aplicados no mercado financeiro, e utilização das reservas internacionais - que, reconheça-se, continuam em níveis altos (saldo de US$ 363,6 bilhões no fim de 2014, no conceito de caixa).

O item que mais contribuiu para a piora dos resultados das contas externas em 2014 foi a balança comercial. O resultado comercial passou de um superávit de US$ 2,4 bilhões em 2013 para um déficit de US$ 3,93 bilhões no ano passado. Essa piora, de US$ 6,33 bilhões, responde por quase dois terços da deterioração das contas correntes em 2014 (também pioraram os resultados dos demais itens que compõem as transações correntes).

Os números do balanço de pagamentos refletem problemas sérios da economia. O aumento do déficit seria até normal se a economia estivesse crescendo, pois cresceriam também as importações. Mas o saldo negativo cresce mesmo com as importações em queda, o que mostra uma acentuada perda de dinamismo das exportações. A queda da cotação de importantes itens da nossa pauta de exportações explica parte desses resultados. Mas a perda de vigor das exportações decorre também da diminuição da competitividade da economia brasileira, sobretudo na indústria de transformação.

O BC projeta um quadro um pouco melhor para 2015, sobretudo com a recuperação da balança comercial, que, na sua avaliação, deve alcançar um superávit de US$ 6 bilhões, de modo que o déficit em conta corrente pode se reduzir para US$ 83,5 bilhões. O alívio monetário europeu pode facilitar as captações do País no mercado internacional e a política brasileira de austeridade monetária e fiscal pode estimular o ingresso de capitais. A melhora, no entanto, está condicionada à preservação desse cenário favorável.

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