A política econômica, o tripé e o zoom

No debate dessa política hoje se destaca apenas um dos seus componentes, o chamado tripé, que se desdobra nas políticas 1) de meta de inflação, do Banco Central (BC), que fixa um valor e um intervalo para essa meta e procura acertá-la gerindo a taxa básica de juros e o crédito, 2) de câmbio flutuante, com intervenções ocasionais, e 3) de gestão das contas públicas, avaliada pelo resultado primário, antes de deduzidos os juros da dívida. De horizonte mais curto, o tripé busca corrigir desequilíbrios como a inflação e no balanço de pagamentos.

Roberto Macedo *,

21 Fevereiro 2013 | 02h05

Esse tripé, contudo, deve associar-se a outro componente da política econômica, indispensável num país como o Brasil. É política de desenvolvimento, que chamarei de zoom. Como ele busca aumentar o tamanho do PIB que hoje está à sua frente. Volta-se para fatores relevantes nesse processo, a disponibilidade de recursos naturais, a educação e profissionalização e o investimento produtivo. E avanços tecnológicos para ampliar a produtividade desses fatores e a competitividade da economia, inclusive com inovações, tudo numa perspectiva de médio e de longo prazos.

Sem a estabilidade dada por um tripé bem assentado o zoom funciona mal e a economia não sai bem na foto. Tal como no passado, pelo efeito de altíssimas taxas de inflação e de sucessivas crises no balanço de pagamentos.

Esse passado está na origem do maior destaque hoje dado ao tripé. Levou também a uma ampliação dos departamentos econômicos dos bancos - que no Brasil são também mais focados no curto prazo - e a muitas consultorias atuando também nessa perspectiva. As análises que vêm desse lado têm grande espaço no noticiário econômico.

E mais: economistas acadêmicos, cujos antecessores eram mais voltados para o desenvolvimento econômico, perderam espaço no debate. Além dessa forte concorrência, estão mais atentos a carreiras em que predomina o publique ou desista. Outra razão é que em geral nossos economistas se educam com livros-texto de macroeconomia que vêm dos EUA, um país já rico. Neles as políticas de estabilização são dominantes e a teoria do crescimento ocupa pequeno espaço. E deixam de lado as de desenvolvimento, voltadas para países que ainda não o alcançaram.

Por motivos políticos, o governo federal é também obcecado com o curto prazo. No momento, seu foco é o PIB de 2013 e o de 2014, para que suas taxas não prejudiquem a reeleição da presidente. E o que faz? Predominam medidas tópicas e sem uma estratégia de horizonte mais longo.

Como o zoom, uma autêntica política de desenvolvimento deveria partir de uma visão da economia em seu tamanho atual e ampliá-lo para o desejado a pelo menos uns cinco anos adiante. Em seguida, a imagem seria editada para mostrar os efeitos do que seria feito para alcançar tal objetivo, pois nesses anos vários aspectos dela se alterariam.

Na minha foto, que segue a literatura sobre o assunto, hoje o Brasil está no segundo estágio de desenvolvimento. O primeiro foi o da produção e exportação de produtos primários, como madeira, ouro e café, sustentados por recursos naturais e mão de obra não qualificada, exceto pelo próprio trabalho.

No segundo, o dinamismo vem dos investimentos empresariais e, em tese, dos governamentais, estes principalmente em infraestrutura, como estradas, portos, e energia. Assim, o País industrializou-se e urbanizou-se rapidamente, mas hoje o crescimento está longe de satisfatório. Seu PIB alcança um amplo leque de serviços e de manufaturas que usam tecnologia disponível no exterior aqui adaptada, ou mesmo criada, como na agroindústria. Em particular, avançou neste setor e na cadeia produtiva minerometalúrgica a partir de seus recursos naturais.

Hoje sonha com o terceiro estágio e quer incursões nele, cujo dinamismo vem da inovação, como nos EUA e no Japão. Mas não consolidou o seu segundo estágio, pois o governo não proveu à economia uma infraestrutura adequada. Carências da existente prejudicam a produtividade da economia, agravam custos e reduzem a sua competitividade.

Assim, o Brasil deve ter como prioridade fazer melhor o que já sabe fazer, e que se incorporou à sua cultura econômica, a de um país de agricultores e mineradores, que passaram a agronegociantes e minerometalurgistas e alcançaram outros setores. Junto com comerciantes, também parte dessa cultura, construíram as bases da estrutura produtiva brasileira. E até hoje esses setores precursores se destacam por sua competitividade internacional.

Assim, aprimorar ainda mais o desempenho de quem já se revela competitivo, mediante infraestrutura adequada, inclusive a social, como o saneamento, deve encabeçar as prioridades da política de desenvolvimento. Esse caminho tem a vantagem de prover o que poderá ser usado indistintamente por todos os agentes econômicos. E sem a necessidade e as dificuldades de escolher setores beneficiados com apoio estatal além dos voltados para esse caminho.

E mais: há quem queira que o governo contenha gastos correntes para ampliar investimentos em infraestrutura. Isso deve ser pregado à exaustão, mas hoje cai nos ouvidos surdos das cabeças que comandam o País. Mas elas não têm outra saída senão ampliar esses investimentos, como tardiamente já começam a demonstrar. Assim, para ampliar o mínimo que podem fazer terão de recorrer a concessões de serviços públicos e a parcerias público-privadas (PPPs). Outra razão é a fraca capacidade de gestão de seus próprios empreendimentos.

O carnaval acabou, mas o Bloco do Tripé seguirá desfilando. Diante dele, e parodiando antiga música de carnaval, cabe cantar: "Oi zum zum, zum zum, zum zum, tá faltando zoom". Sem ele o desenvolvimento continuará fraco e muito dependente de ventos que sopram de fora do País.

* Roberto Macedo é economista (UFMG, USP e Harvard), professor associado à Faap, consultor econômico e de ensino superior.
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