A precariedade dos museus

'Eles enfrentam uma grave crise. O recente incêndio no Museu da Língua Portuguesa é apenas parte desse quadro'

O Estado de S.Paulo

01 Janeiro 2016 | 03h00

Nos últimos anos, multiplicaram-se as parcerias entre museus e empresas, o que viabilizou financeiramente a realização de muitas e importantes exibições, que atraíram milhões de espectadores. Em 2014, por exemplo, os dez museus mais visitados da cidade de São Paulo tiveram recorde de público. Receberam mais de 3,2 milhões de pessoas, com longas filas de espera, que avançavam pelos quarteirões nos arredores das instituições. Sem exagero, pode-se dizer que os museus nunca foram tão populares.

Mas nem tudo é um mar de rosas para os museus. Eles enfrentam uma grave crise. O recente incêndio no Museu da Língua Portuguesa é apenas parte desse quadro. Há dinheiro para exibições, mas não há recursos para a manutenção corriqueira dos museus.

O problema não é recente. Em 2011, um levantamento produzido pelo Sistema Estadual de Museus (Sisem), órgão ligado à Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, mostrou que 86% dos 415 museus públicos e privados do Estado de São Paulo tinham, ao menos, um problema grave. O relatório alertava para a falta de políticas de conservação do acervo, de cuidados de climatização, de reservas técnicas, de funcionários e, em alguns casos, de visitantes, já que havia instituições fechadas ao público.

Essa é, por exemplo, a atual situação do Museu Paulista da Universidade de São Paulo, conhecido como Museu do Ipiranga. Fechado ao público em agosto de 2013, seu prédio histórico continua interditado, sem previsão de reabertura. Apenas sua biblioteca, transferida para alguns imóveis alugados, está aberta à visitação.

Não é difícil de identificar a causa desse precário estado dos museus. Falta dinheiro para sua manutenção. As parcerias com a iniciativa privada restringem-se a projetos específicos, com alta visibilidade e retorno publicitário imediato. As empresas têm interesse em financiar exposições e, algumas vezes, inaugurações de novos museus ou instalações.

Por paradoxal que pareça, essas parcerias agravam o problema dos museus. Levam o poder público a sentir-se desobrigado de investir nas instituições, com a alegação de que elas podem andar com as próprias pernas, pois teriam viabilizado fórmulas alternativas de obter recursos.

Mas não é isso o que ocorre com a imensa maioria dos convênios com a iniciativa privada. Eles não financiam a manutenção das instalações nem as atividades acadêmicas e culturais próprias dos museus e, por sua natureza, são de longo prazo. No entanto, os museus precisam se manter no tempo e os recursos oriundos de projetos específicos são inadequados para isso.

Tal modelo de financiamento produz um perverso resultado. Há parcerias com os museus que estão em boas ou razoáveis condições de manutenção, mas tão logo eles se tornam precários – e isso é inevitável com o tempo, quando não há o devido investimento – são abandonados e substituídos por outros. Ou seja, o tom dessa relação entre museu e iniciativa privada não é tanto de parceria. Assemelha-se, talvez, a um certo parasitismo.

Há um sofisma no discurso de algumas empresas, quando alardeiam sua atividade a favor da cultura. Elas não financiam a cultura. Estão apenas realizando ações de marketing, que interessam diretamente ao seu negócio. Não há qualquer mal nisso, mas não se pode falar propriamente em investimento em cultura.

Faz falta – e é disso que os museus precisam para se manter – um real espírito público a favor da cultura. Seja do poder público – promovendo a profissionalização da gestão, acompanhando os projetos e sua viabilidade de longo prazo, investindo o que é preciso –, seja da iniciativa privada, com uma atuação que ultrapasse o imediato interesse de marketing institucional.

Submeter a manutenção e o desenvolvimento dos museus a uma lógica estritamente comercial é decretar a sua morte. Cultura e publicidade não são – não devem ser – sinônimos.

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