A primeira reunião dos Brics

Faltou assunto para dar substância à primeira conferência de cúpula dos Brics, por enquanto apenas uma sigla, não um grupo e muito menos um bloco. É, no mínimo, um exagero já chamar, neste momento, de histórica a reunião dos chefes de governo dos quatro maiores países emergentes - Brasil, Rússia, Índia e China - realizada em Ecaterimburgo, nos Urais. A principal declaração distribuída depois do encontro enumera alguns objetivos amplos, como a construção de um sistema financeiro mais seguro, a reforma de instituições multilaterais, a conclusão da Rodada Doha de negociações comerciais e a renúncia ao protecionismo. Essas bandeiras foram agitadas também na última reunião do Grupo dos 20 (G-20), realizada em Londres em 2 de abril. São importantes para todo o mundo, já foram discutidas em vários foros, incluído o Fundo Monetário Internacional (FMI) e já estão incluídas na agenda global. Não bastam para diferenciar os países classificados como Bric e conferir-lhes uma identidade coletiva. Outros itens do comunicado, como as promessas de cooperação científica e tecnológica, a defesa do desenvolvimento sustentável e o apoio a um sistema internacional baseado na lei e na solução pacífica de controvérsias, poderiam constar de outras declarações conjuntas. Segundo informou uma fonte, na véspera do evento, o encontro deveria servir como contrapeso à reunião de cúpula do Grupo dos 8 (G-8) programada para os dias 8 a 10 de julho na cidade italiana de Aquila. Tolice monumental. A Rússia é o oitavo membro do G-8. Os outros são as sete principais economias capitalistas - Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá. Americanos e europeus têm as maiores cotas de acesso ao mercado russo de carnes. O Brasil não tem nem cota, e o presidente russo, consultado sobre o assunto num encontro paralelo à cúpula dos Brics, desconversou. Na semana passada, o ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim, havia anunciado, em Paris, a morte do G-8. Em Ecaterimburgo, seu colega russo, Sergey Lavrov, desmentiu o necrológio.Antes da cúpula, o ministro das Finanças da Rússia, Alexei Kudrin, havia defendido a adoção de outras moedas, além do dólar, como reservas internacionais. O assunto tem aparecido com frequência em pronunciamentos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Além de apoiar a substituição pelo menos parcial da moeda americana como ativo de reserva, o presidente brasileiro tem proposto a vários parceiros o comércio baseado em moedas nacionais. Era um dos assuntos em sua agenda, antes da cúpula. O comunicado final passou longe do tema. Conteve apenas uma vaga defesa de um "sistema monetário internacional estável, previsível e mais diversificado". Seria surpreendente se a declaração conjunta fosse muito além desse ponto, considerando-se a condição da China como principal detentora de papéis do Tesouro americano - US$ 767,9 bilhões, segundo informação recente do Tesouro dos Estados Unidos. Depois de um comentário do presidente russo, Dmitri Medvedev, sobre a questão das moedas de reserva, o dólar havia caído 0,9%. Mais prudente seria mudar de assunto, para não impor uma desvalorização aos títulos americanos guardados pela China. O principal comunicado conteve ainda referências a alguns temas de interesse especial de membros do Bric. Houve uma declaração de apoio às pretensões brasileira e indiana de assumir um papel mais importante na Organização das Nações Unidas - uma referência indireta à ampliação do Conselho de Segurança, do qual Rússia e China já são membros permanentes. Além disso, houve menções à diversificação das fontes energéticas (incluídos os biocombustíveis, presumivelmente) e à segurança de rotas de trânsito de energia. Problemas de trânsito ocorreram, não há muito tempo, quando o governo da Ucrânia interrompeu o fluxo de gás da Rússia para o mercado europeu. O segundo comunicado, sobre a segurança alimentar, é até mais chocho. Além de se pronunciar a favor dos países pobres, os Brics insistem na conclusão da Rodada Doha e isentam os emergentes (principalmente a China) de responsabilidade pela alta de preços dos alimentos nos últimos anos. A próxima cúpula foi marcada para 2010, no Brasil.

, O Estadao de S.Paulo

18 de junho de 2009 | 00h00

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