A produção entravada

A economia brasileira estagnou no terceiro trimestre, embora o Produto Interno Bruto (PIB) - o valor dos bens e serviços finais gerados no período - ainda tenha sido 2,1% maior que o de um ano antes e tenha crescido 3,7% em 12 meses. Mas o crescimento zero no período de julho a setembro é um sinal inequívoco: até o consumo perdeu impulso e isso justifica o empenho do governo em estimular a volta às compras. Mas o pacote econômico divulgado na semana passada é limitado. Pode animar os consumidores a curto prazo, mas é preciso fazer mais pela indústria de transformação, o setor mais enfraquecido e mais abalado pela concorrência internacional. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, fala em retomada já neste trimestre e promete para o próximo ano um crescimento de até 5%. Qualquer resultado igual ou superior a 4% será satisfatório, num quadro internacional muito ruim. Mas políticas de curto prazo, incluída a redução dos juros básicos, serão insuficientes para sustentar a expansão por mais tempo e impedir danos maiores à estrutura industrial. É preciso destravar a produção.

O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2011 | 03h08

Os principais desafios ficam mais claros quando se examinam os dados de um ano ou de um período um pouco mais longo. O consumo das famílias cresceu 5,4% em quatro trimestres. O do governo, 2,3%. No mesmo período, a produção da indústria de transformação só aumentou 1,7%. A diferença vazou para o exterior. A importação de bens e serviços avançou 14,5%. A exportação, apenas 6,8%. O quadro fica mais feio quando se examinam alguns detalhes com mais atenção. A participação de importados no mercado brasileiro de bens industriais chegou a 20,4% em quatro trimestres, 1,3 ponto a mais que no período anterior, segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria. Isso inclui tanto produtos destinados ao consumo final quanto ao processo produtivo. Essa proporção cresceu de forma quase contínua a partir de 2003, quando era pouco inferior a 12%. Parte dessa evolução é atribuível à valorização do real, mas a causa mais importante, a longo prazo, tem sido o descompasso entre os custos no Brasil e nos principais países competidores (transportes, energia, impostos, encargos sociais, etc.).

O peso da tributação é visível nas contas divulgadas ontem pelo IBGE. Calculado a preços básicos, isto é, sem impostos, em 12 meses o PIB cresceu 3,3%. O número chega a 3,7% quando se acrescentam os impostos sobre produtos. Estes impostos aumentaram 6,1%, muito mais que o valor da produção de cada setor (2,7% na agropecuária, 2,9% em todos os segmentos industriais e 3,6% nos serviços).

O investimento em máquinas, construções e obras de infraestrutura diminuiu 0,2% do segundo trimestre para o terceiro, mas ainda acumulou crescimento de 7% em quatro trimestres. Foi o item com maior expansão no período - um dado muito positivo, porque sem esse fator o crescimento é insustentável a longo prazo. Também o dinheiro investido acaba sendo, em boa parte, canalizado para fora. Isso se explica por dois fatores. Em alguns casos, o bem procurado não é disponível no mercado interno. Nenhum país, mesmo entre os mais avançados, fabrica todos os tipos de equipamentos. Mas há também o problema do preço, afetado pela valorização do real e por outros fatores. No terceiro trimestre, o câmbio foi mais favorável do que um ano antes, mas o desajuste vem de longe.

Embora o investimento cresça mais que o consumo há vários anos, continua insuficiente para sustentar um crescimento duradouro em ritmo superior a 5%. No terceiro trimestre, o País investiu o equivalente a 20% do PIB, 0,5 ponto menos do que um ano antes. Em 2008, a proporção chegou a 20,6%. Deveria ser de uns 24% ou 25%, pelo menos, para garantir uma expansão econômica sustentável de uns 7%, segundo estimativa corrente entre os economistas. Isso depende em boa parte do governo, incapaz de poupar para investir e também de administrar a execução de projetos. Depende também de uma redução de custos. No Brasil, o empresário paga impostos pesados quando investe na modernização e na expansão da capacidade produtiva. Países com políticas mais sensatas crescem mais e conquistam mercados mais facilmente.

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