A propagação do terror

Passados quase 11 anos da invasão do Iraque, continua mais atual do que nunca o prognóstico do então secretário-geral da Liga Árabe, o egípcio Amr Moussa. Alertava ele que a operação militar ordenada pelo presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, com total apoio do primeiro-ministro britânico, Tony Blair, para derrubar o ditador Saddam Hussein, abriria "as portas do inferno" não apenas no país ocupado, mas no seu amplo entorno cronicamente instável.

O Estado de S.Paulo

08 Janeiro 2014 | 02h08

Dos variados pretextos invocados por Bush para ocupar o território iraquiano, o mais notório, como se recorda, era o imperativo de impedir que Saddam lançasse as suas armas de destruição em massa contra alvos americanos e de aliados no Oriente Médio. Não tardou até os próprios invasores reconhecerem que elas simplesmente inexistiam. (O ditador se gabava de tê-las apenas para afirmar o seu poder pessoal e manter submissos os generais de Bagdá.)

O fato é que tão logo reapareceu na Casa Branca, em seguida ao ataque de 11 de setembro de 2001 às Torres Gêmeas de Nova York e ao Pentágono, em Washington, Bush se disse convencido de que o ultraje tinha sido cometido a mando de Saddam ou, pelo menos, em comum acordo com o líder da rede terrorista Al-Qaeda, Osama bin Laden. Entre as tantas realidades que ignorava, a exemplo da divisão dos iraquianos em sunitas, xiitas e curdos, estava a aversão de Saddam ao fundamentalismo islâmico que emanava do Afeganistão.

Em dezembro de 2011, os últimos soldados americanos foram retirados de um Iraque supostamente pacificado e com um arremedo de instituições democráticas, sob a autoritária liderança do primeiro-ministro xiita Nuri al-Maliki. A tomada do país, a insurgência e a guerra civil em que ela se degenerou custaram 4.500 vidas americanas, dezenas de milhares iraquianas e ao menos US$ 1 trilhão. Parafraseando Amr Moussa, também deixaram escancaradas as portas para a propagação do inferno terrorista.

A Al-Qaeda tornou a se instalar no país, favorecida pelo agravamento dos conflitos internos, em razão da aberta hostilidade do governo de Al-Maliki à maioria sunita - a mesma facção etnorreligiosa dos seguidores de Bin Laden. A geopolítica faz o resto: com o prolongamento da revolta contra o ditador Bashar al-Assad na vizinha Síria, os jihadistas, a maioria deles vindos da Península Arábica, outros da Europa, tornaram-se uma força considerável entre os rebeldes, a ponto de desencadear em seu âmbito outra guerra não menos selvagem.

Da Síria ao Iraque foi um passo, pode-se dizer, a caminho do estabelecimento de uma nação islâmica supranacional no Oriente Médio, prenúncio da Umma - a comunidade global almejada pelos que se consideram os únicos verdadeiros seguidores de Alá. As mais recentes incursões extremistas ocorreram ainda no Líbano, Iêmen e, para variar, Afeganistão. Só ali os EUA mantêm tropas. No Iraque, em um feito inédito desde os confrontos que se seguiram à ocupação, o ramo regional da Al-Qaeda, que se denomina Estado Islâmico do Iraque e do Levante, assumiu o controle de áreas de uma cidade.

Trata-se de Faluja, capital da província de Anbar, no oeste do país, a 70 quilômetros de Bagdá, com 320 mil habitantes sunitas. Maliki, o premiê xiita, instou a população a expulsar os terroristas, deixando claro que, se não o fizerem, o Exército atacará. As imagens de civis fugindo do lugar rumo a Bagdá circulam desde a segunda-feira. Mas poderiam perfeitamente bem datar do tempo da intervenção americana, quando Faluja era chamada "a Stalingrado iraquiana" pela ferocidade dos combates entre invasores e insurgentes.

Os EUA, principais supridores de armas do Iraque, anunciaram o envio de 100 mísseis para reforçar o poder de fogo do governo na região. Mais importante do que isso, está na ordem do dia um eventual realinhamento estratégico americano no Oriente Médio, onde só o Irã xiita é um inimigo da Al-Qaeda sem fraturas ocultas - à diferença, por exemplo, da Arábia Saudita. Teerã tem todo interesse em aproveitar a causa comum para se mostrar amigável a Washington.

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