A propaganda subliminar

Com o desenvolvimento estrondoso das tecnologias da comunicação, torna-se necessário proteger a sociedade, especialmente nos períodos eleitorais, de uma variedade imensa de formas de propaganda subliminar.

MAURO CHAVES, O Estado de S.Paulo

24 Abril 2010 | 00h00

Quando menos se espera ou desconfia, mensagens aparentemente ingênuas trazem em seu bojo uma carga camuflada de publicidade eleitoral, em favor de candidaturas e em detrimento de seus respectivos adversários.

Sob o pretexto de comemorar seus 45 anos de existência, uma poderosa rede de televisão desenvolveu um clipe, com seus conhecidos artistas, para gravar subliminarmente, na cabeça do telespectador-eleitor, o número de um partido político que tem forte candidato a presidente da República. Dir-se-á que, tendo completado 45 anos, seria inevitável à rede mostrar o numero 45.

Mas isso não é verdade.

Não é imaginável que, um ano antes de ser inaugurada, a emissora não tivesse já pensado em existir. Então, poderia perfeitamente considerar este ano anterior de planejamento e estabelecer, agora, seu aniversário de 46 anos, para não dar margem a exploração eleitoral de nenhum candidato ou partido. Por respeito à isenção eleitoral ela pularia, simplesmente, o número 45 de seu rol de aniversários.

O que agravava o clipe era o fato de nele se repetir, subliminarmente, o slogan de um candidato. Os artistas dizendo "todos queremos mais", "emoções? Mais!", "educação, saúde e, claro, amor e paz, Brasil? Muito mais", estava mais do que evidente a intenção de repetir o slogan "o Brasil pode mais". E tanto era evidente tal intenção que, denunciada a respeito, a rede de televisão tacitamente confessou a propaganda subliminar, ao retirá-la imediatamente do ar.

A desculpa de que o clipe fora feito em 2009 é esfarrapada, pois então a emissora já podia saber do slogan que usaria um dos candidatos em sua campanha. Além do mais, se não havia má intenção, por que, por exemplo, ela não usou uma outra frase do tipo "o Brasil pode menos" - aí significando menos corrupção, menos crimes, menos analfabetismo, etc.?

Na verdade, o slogan "o Brasil pode mais", denunciado como cópia literal da campanha pela direção do clube que tem o time de futebol dos meninos craques que estão empolgando o Brasil, certamente foi escolhido a dedo para associá-lo a um candidato a presidente da República - mesmo que este torça por outro time, em situação não muito boa. Típica propaganda subliminar, que busca algum tipo de ligação com o melhor, em que campo seja.

Por seu lado, um grande veículo de comunicação, da imprensa escrita, no dia 20 de abril, terça-feira, estampou em sua primeira página, em letras garrafais: "Europa faz plano para retomar 45% dos voos" - interrompidos pela fuligem emanada do vulcão da Islândia. Ora, como o jornal teria calculado, exatamente em 45%, o porcentual de retorno das viagens de avião na Europa? Onde estariam as planilhas de tal cálculo? Não poderia ser 44% ou 47%? Poderia, mas como o retorno dos voos na Europa representava um alívio do caos aéreo, transmitindo uma sensação positiva a todos os cidadãos, o jornal aproveitou para fixar esse número - 45 - na cabeça de seus leitores-eleitores. Propaganda partidária subliminar pura!

O mais chocante, no entanto, é a própria Justiça Eleitoral usar tal aleivoso método. Em entrevista a outro grande jornal, em 18 de abril, domingo, o novo ministro que preside o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), comandando, assim, todo o processo das eleições de outubro, afirmou, categoricamente, o seguinte: "Como eleitor, eu vou escolher quem tenha melhor antecedente." Dessa forma, identificou claramente, sem qualquer disfarce, o candidato a presidente da República em que vai votar! Onde estará, então, a isenção da Justiça?!

Só os ingênuos não farão associação depreciativa do excesso de uso da "dança da boquinha" nos "reality shows" com a "dança" eleitoral do apelidado "partido da boquinha". Eis aí uma propaganda subliminar de mestre.

Mas quem atentar para algumas manchetes de jornais, alguns tópicos de comentários nas rádios ou anúncios e vinhetas que aparecem na televisão, poderá detectar um enorme manancial de merchandising político-eleitoral subliminar: ora transparece a valorização da competência, ora a do esforço do aprendizado, ora a da experiência - sendo tudo isso um conjunto indisfarçável de mensagens (subliminares) de apoio a uma candidatura presidencial.

Por outro lado, percebe-se nas entrelinhas de reportagens jornalísticas, radiofônicas ou televisivas um claro preconceito contra pessoas que já se utilizaram da violência em sua atividade política, integrando grupos especializados em atentados, atos de guerrilha ou terrorismo - o que não deixa de ser uma tentativa aleivosa de desqualificação de candidaturas.

Nessa tentativa incorre, também, o próprio Ministério Público, que deveria ser eleitoralmente isento, mas exibe todo o seu preconceito contra o "aparelhamento" da máquina pública, no que revela, sem disfarces, de que lado está na sucessão presidencial. O problema é que todos os pronunciamentos de seus agentes, em lugar de mostrar para a população a transparência de sua opção eleitoral - com o que poderia ter sua falta de isenção formalmente contestada -, são feitos em linguagem ambígua, tergiversada, mas de efeito indiscutivelmente subliminar.

Enfim, é preciso que a sociedade brasileira resista a essas tentativas esconsas, traiçoeiras (porque subliminares) de restabelecimento do mérito e da decência no País.

É JORNALISTA, ADVOGADO, ESCRITOR, ADMINISTRADOR DE EMPRESAS E PINTOR. E-MAIL: MAURO.CHAVES@ATTGLOBAL.NET

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