A provocação de Pyongyang

O terceiro e mais bem-sucedido teste nuclear da Coreia do Norte em sete anos tornou a expor o fracasso da tentativa da comunidade internacional, a começar dos EUA, de travar a longa marcha de Pyongyang rumo ao clube atômico. As três rodadas de sanções já impostas pelo Conselho de Segurança (CS) da ONU, talvez por se concentrarem nas atividades nucleares e missilísticas norte-coreanas, não retardaram, muito menos bloquearam o desenvolvimento da sua tecnologia bélica. Pior ainda, deram ao regime pretexto para persistir nas mesmas ações que tentam reprimir.

O Estado de S.Paulo

14 Fevereiro 2013 | 02h06

Em dezembro, quando a ONU puniu o país por ter lançado, com êxito, um míssil de longo alcance, oficialmente destinado a pôr um satélite em órbita, a primeira reação do governo de Kim Jong-un foi ameaçar com nova explosão atômica - que se consumou na terça-feira. O próprio argumento em favor de sanções mais abrangentes tem contra si a força dos fatos. As penas impostas ao Irã, por exemplo, alvejaram efetivamente a economia nacional, mas tudo indica que apenas reforçaram a decisão de Teerã de ir adiante. Por ir adiante entenda-se alcançar a capacitação nuclear e fabricar mísseis aptos a conduzir os artefatos que venha a produzir.

Os críticos das sanções como instrumento para conter a proliferação nuclear lembram, a propósito, que o líder supremo da autocracia iraniana, o aiatolá Ali Khamenei, declarou há um ano que as medidas punitivas, embora "dolorosas", tornaram o país "mais autoconfiante". Já a Coreia do Norte ficou mais arrogante - com todo o desconto dado ao gosto da dinastia comunista por pronunciamentos paroxísticos, desde o advento da "República Democrática" em 1948, com a divisão da Península Coreana. Anteontem, um porta-voz do Ministério do Exterior de Pyongyang, em nova provocação, advertiu que o teste "foi apenas a primeira e comedida resposta" à hostilidade dos EUA. Caso Washington não mude de atitude, acrescentou, "seremos forçados a dar segundas e terceiras respostas mais fortes, em passos consecutivos".

Na realidade, o que o hermético regime norte-coreano almeja é continuar sendo o que é - uma das mais opressivas tiranias do mundo -, ser aceito como tal, adquirir o status de grande potência e, novamente, ser aceito como tal. O ar sufocante de Pyongyang parece composto, em igual medida, de paranoia e megalomania. Por um motivo e outro, nada ali rivaliza, ainda que remotamente, com a primazia da empreitada militar. Centenas de milhares de súditos podem morrer de fome, milhões padecem de subnutrição, mas nem um único centavo deixará de ser carreado para a área bélica. A perspectiva de uma Coreia do Norte atômica é um pesadelo presente para o vizinho do Sul e uma promessa de corrida armamentista no Extremo Oriente, da qual o Japão não deixará de participar.

Nessa assustadora equação, a grande incógnita é a China, que provê Pyongyang de seus nutrientes essenciais - combustível, alimentos, bens de produção e tecnologia - e manifesta de forma cada vez mais aberta o seu desconforto com os rompantes atômicos do Estado-cliente. Pequim protestou tanto quanto as capitais ocidentais diante da explosão desta semana e se juntou aos 14 demais membros do CS na condenação aos norte-coreanos. O colegiado deverá adotar em breve uma resolução a respeito, decerto em termos calculados para que possa receber o endosso do novo líder chinês Xi Jinping. Mas os comentários de que a China "está perdendo a paciência" com a Coreia do Norte parecem, no mínimo, precipitados.

A relação entre ambos é singular na política externa de Pequim - um caso de exclusividade compartilhada pela elite do Partido Comunista e a alta hierarquia das Forças Armadas. Além disso, no limite, Pequim preferiria realisticamente conviver com uma Coreia do Norte nuclear à desestabilização de Pyongyang, que impeliria milhões de pessoas a fugir para o território chinês em busca da sobrevivência. Por fim, a história recente ensina que nenhum país determinado a obter a bomba deixou de obtê-la.

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