A queda de Bo Xilai

O eufemismo "caiu no processo" caiu em desuso antes até da queda do Muro de Berlim. Nas ditaduras comunistas, era uma forma cínica de falar do destino de qualquer dos altos quadros do Partido e do governo destituídos de suas funções - e muitas vezes executados em seguida - por desvios reais ou imaginários da linha imposta pela facção no poder. De fato, o expurgo dos vencidos nos embates entre os hierarcas do regime era parte inseparável do processo político dos países do chamado socialismo real. Só mesmo nos seus estertores, ser expurgado já não significava necessariamente receber também uma bala na nuca.

O Estado de S.Paulo

17 Março 2012 | 03h07

Para citar outra flor do léxico comunista, "reabilite-se" o termo antigo. Justamente na China dos cataclismos políticos e sociais sem paralelo, como a Revolução Cultural deflagrada em 1966 por Mao Tsé-tung, cujos efeitos perduraram até a sua morte, dez anos depois, acaba de "cair no processo" o mais visível astro em ascensão na elite comunista - e que, por sinal, citava com ar nostálgico as "canções vermelhas" daqueles anos selvagens. Bo Xilai, ele próprio filho de um herói da Revolução, Bo Yibo, que fez a Longa Marcha ao lado de Mao, foi removido quinta-feira da chefia do partido e do governo de Chongqing, capital do aglomerado urbano que mais cresce no mundo, com 30 milhões de habitantes.

Bo Xilai, de 63 anos, estava cotado para assumir uma das nove cadeiras do Comitê Permanente do Partido, a sua mais alta instância, onde tem assento, por exemplo, o primeiro-ministro (Wen Jiabao, atualmente). É entre os seus membros que os 371 integrantes do Comitê Central escolhem o secretário-geral do PCC, o qual assume a presidência do país. No fim do ano, o líder atual Hu Jintao deverá ceder o lugar ao vice Xi Jinping. O ideal comunista chinês é o de sucessões harmoniosas, depois do sepultamento em surdina das ambições derrotadas. Para os padrões do regime, a escolha de Hu Jintao em 2002 foi exemplar. Mas não era a regra.

O seu antecessor, Jiang Zemin, só chegou lá depois que, em 1989, o favorito Zhao Ziyang, número um do partido e herdeiro aparente do legendário reformador Deng Xiaoping, caiu no processo por se recusar a mandar o Exército reprimir as manifestações na Praça da Paz Celestial, em Pequim. Passou os últimos 16 anos de vida em prisão domiciliar. Agora, o expurgo (e eventual detenção) de Bo já é comparado ao de Zhao por seus "efeitos potenciais", no dizer do sinólogo Cheng Li, da Brookings Institution, citado pelo Financial Times. Como teria dito Chou En-lai da Revolução Francesa, é cedo para prever no que dará a liquidação política de Bo.

O que se pode afirmar com certeza é que, para a sua queda, pesou o fato de ele ser um dirigente exuberante demais para os disciplinados usos e costumes da cúpula partidária, com as suas faces impassíveis, simulação de unidade e distanciamento imperial dos mortais comuns. Expansivo, populista no sentido de apreciar multidões e dispensar a intermediação do aparato partidário para se comunicar com elas, era querido por boa parte da população pela guerra às máfias locais que desencadeou com característico espalhafato. Era também apreciado pelos investidores estrangeiros com quem negociava pessoalmente projetos grandiosos para Chongqing.

Mas há pelo menos uma evidência circunstanciada - de um empresário que fugiu para o exterior - de que a política de Bo era uma variante do gênero "aos amigos, tudo; aos inimigos, as duras penas da lei". O empresário foi perseguido, extorquido e torturado por sicários do autocrático líder regional. Não foi essa, porém, a razão de sua derrocada, mas o estranho asilo pedido pelo seu chefe de polícia e braço direito no combate ao crime organizado a um consulado americano, no mês passado. Persuadido por intermediários a mudar de ideia, foi preso ao voltar à rua e é investigado por corrupção - um golpe letal para o prestígio de Bo no Partido. O principal, em todo caso, é que na economia chinesa de mercado fomentada pelo partido único, há pouco espaço para saudosos do coletivismo maoista.

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