A realidade se impôs

É um alívio para o sofrido povo venezuelano saber que seu drama não será mais tratado como peça de ficção de uma tacanha trama política com viés conspirativo

O Estado de S.Paulo

28 Novembro 2018 | 03h00

O ditador Nicolás Maduro parece ter se dobrado à realidade, permitindo que a Organização das Nações Unidas (ONU) ofereça ajuda humanitária à Venezuela. Não é uma decisão trivial porque, há até pouco tempo, Maduro sequer reconhecia haver uma crise em seu país. E quando se viu confrontado pelos fatos, passou a culpar os “países imperialistas” – especialmente os Estados Unidos – pela espiral de infortúnios que maltrata os venezuelanos, há duas décadas sob os desmandos do regime chavista.

Maduro sempre fez pouco-caso do sofrimento do povo, cuja maioria esmagadora tem de lutar pela sobrevivência dia após dia, em busca de comida, remédios e cuidados médicos básicos. Prova disso é que vinha negando reiteradamente todas as ofertas de ajuda externa, mesmo as que não tinham qualquer relação com a mediação política da crise, ou seja, restringiam-se tão somente ao apoio humanitário.

Em um delírio persecutório típico de ditadores, Maduro via em qualquer oferta de ajuda humanitária uma ameaça de “intervenção militar estrangeira” em seu país. Não deve ser fácil para alguém como ele acreditar genuinamente em valores como compaixão e solidariedade. Chegou a afirmar a estultice na Assembleia-Geral da ONU, em setembro: a crise social, política e econômica em seu país não passava de uma “invenção” para justificar uma intervenção dos EUA na Venezuela.

É um alívio para o sofrido povo venezuelano – que precisa dispor de 14,6 milhões de bolívares (US$ 2,22) para comprar 2,5 quilos de frango – saber que seu drama não será mais tratado como peça de ficção de uma tacanha trama política com viés conspirativo.

O acordo firmado entre a ONU e a Venezuela prevê a imediata alocação de US$ 9,2 milhões em programas de assistência médica e alimentar. Como apurado pelo Estado, o apoio dar-se-á, inicialmente, por meio de agências internacionais com representação em Caracas. Esses órgãos administrarão os fundos liberados pela ONU. Do total, US$ 2,6 milhões serão gastos exclusivamente no aporte nutricional às crianças, gestantes e lactantes, US$ 1,7 milhão será destinado ao amparo de mulheres e meninas nos Estados que fazem fronteira com a Colômbia e o Brasil. Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) será destinatária da maior parte dos recursos: US$ 3,6 milhões.

Fontes da ONU ouvidas pela reportagem esperam que esta ajuda inicial represente o início de um processo de auxílio ainda mais amplo. Tomara. A crise da Venezuela configura um drama humanitário sem precedentes na história recente da América Latina.

Segundo a ONU, até o início deste mês, a crise venezuelana já havia resultado no êxodo de cerca de 3 milhões de pessoas, 205 mil apenas este ano. Trata-se do maior fluxo migratório do continente nas últimas décadas. Para a organização, o fluxo pode ser ainda maior se não houver ações concretas a fim de dar imediatamente melhores condições de vida para os venezuelanos, sobretudo no tocante às questões de saúde e alimentação. 

Em 2014, havia 66 mil médicos registrados na Venezuela. Este ano, um terço deixou o país. Por escassez de comida, idosos no Estado de Miranda chegaram a perder, em média, 16 quilos por ano. O índice de mortalidade infantil no país regrediu 40 anos e é duas vezes maior do que a média latino-americana. Hoje, há 20 mortes no primeiro mês de vida para cada mil nascimentos no país.

Importante lembrar que a crise humanitária na Venezuela é também uma crise para os países vizinhos, como o Brasil, que têm recebido refugiados sem ter condições de absorver o aumento da demanda por serviços públicos que o novo fluxo gera.

Não há informações sobre as razões que levaram à mudança de atitude do governo de Maduro. Mas isso é o que menos importa agora. Qualquer solução para a crise política que se abate sobre a Venezuela passa, necessariamente, pela preservação da vida de seu povo. Ao aceitar, enfim, a ajuda oferecida pela ONU, Maduro fez o mínimo que poderia fazer.

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