A recuperação americana

A economia americana, responsável por quase um quarto da produção mundial, continuou em recuperação no primeiro trimestre e cresceu em ritmo equivalente a 3,2% ao ano, puxada pelo consumo das famílias. Em contraste, os europeus permanecem atolados na estagnação e ameaçados de enfrentar novos grandes problemas por sua demora em cuidar da crise grega. Nos Estados Unidos, o PIB cresceu pelo terceiro trimestre consecutivo e a recessão parece ter ficado definitivamente para trás. O avanço nos primeiros três meses do ano correspondeu a um acréscimo de US$ 147,6 bilhões ao PIB, agora estimado em US$ 14,6 trilhões.

, O Estado de S.Paulo

03 Maio 2010 | 00h00

A expansão americana foi maior nos três meses finais de 2009 (5,6%), mas esse desempenho se deveu muito mais à recomposição de estoques. A qualidade do crescimento mudou a partir do começo deste ano. O aumento do consumo privado ? 3,6% anualizados ? confere maior solidez à expansão observada no trimestre inicial de 2010. Os números divulgados na sexta-feira pelo Departamento de Comércio são preliminares e ainda sujeitos à correção, mas a tendência parece bem definida.

O desemprego, como se previa, continua elevado, apesar da reativação do consumo ? a maior variação em três anos ? e da expansão de 4,1% nos investimentos não residenciais, com destaque para os setores de equipamentos e de software. No trimestre anterior, o consumo privado havia crescido apenas 1,6%, sempre em valor anualizado. Os consumidores foram atrás principalmente de bens duráveis, como automóveis e eletrônicos.

Desde o fim de 2007 desapareceram cerca de 8 milhões de empregos. As contratações apenas começaram e a recolocação dos demitidos vai demorar. Em março, os desempregados eram 9,7% da força de trabalho, taxa parecida com a do fim do ano.

As estatísticas do desemprego no mundo rico ainda poderão piorar em 2010, antes de começarem a cair, advertiram há algumas semanas economistas do FMI. Nos Estados Unidos, a média projetada para o ano é de 9,4%, pouco superior à de 2009 (9,3%). Para a zona do euro, estima-se uma elevação maior, de 9,4%, em 2009, para 10,5%, em 2010. A reabertura dos postos de trabalho também será mais lenta na Europa, segundo os cálculos divulgados pelo Fundo.

Os números efetivos poderão ser diferentes dos projetados, mas a tendência indicada nesses estudos provavelmente será confirmada, a julgar pela evolução recente da economia nos diferentes blocos e regiões.

Nos Estados Unidos, projeções correntes no mercado apontam um crescimento econômico entre 2,5% e 3,5% em 2010. Técnicos do FMI estimam para a economia americana uma expansão de 3,1% neste ano e de 2,6% no próximo. As projeções para a zona do euro ficam em modestíssimos 1% e 1,5%. Para o Reino Unido, as estimativas são de 1,3% em 2010 e 2,5% em 2011.

Se o socorro à Grécia demorar mais, as perspectivas de crescimento europeu poderão piorar. O nervosismo nos mercados financeiros poderá afetar seriamente outros países, dificultando a recuperação regional. Os governos das maiores economias da área decidiram manifestar-se depois do rebaixamento dos papéis soberanos da Grécia e de Portugal e da nova onda de pânico nos mercados.

Mas falta definir quando os governos ? a começar pelo da Alemanha ? vão passar das palavras à ação. Enquanto isso, as autoridades da Grécia, de Portugal e da Espanha se apressam em divulgar planos de ajuste das contas públicas, para eliminar os temores de maiores problemas.

Mais uma vez a economia americana se mostra mais flexível e mais ágil que as outras do mundo rico. Em breve poderá retomar seu papel de locomotiva global, desta vez, no entanto, ao lado das maiores potências emergentes. Mas o necessário ajuste das contas públicas e o aumento da poupança interna ? se confirmados ? farão dos Estados Unidos um mercado menos dinâmico para os produtores estrangeiros. Continuará sendo o mais importante do mundo, mas também será objeto de uma disputa muito mais dura entre os exportadores do resto do mundo. Eis um bom assunto para os estrategistas brasileiros.

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