A recuperação da Eletrobrás

Sem equilíbrio financeiro, de nada adianta anunciar programas mirabolantes de expansão de sua capacidade operacional

O Estado de S. Paulo

20 Dezembro 2016 | 03h09

A essência do plano de negócios da Eletrobrás para os próximos cinco anos é uma proposta de superação da tragédia administrativa, financeira e operacional em que a empresa foi lançada pela irresponsável política energética imposta à estatal e a todo o setor elétrico pelo governo Dilma Rousseff. Baseada numa insustentável redução de tarifas para o consumidor final e em regras de renovação de concessões que se mostraram danosas para todas as empresas do setor e para o contribuinte, a política dilmista resultou em pesadas perdas para a Eletrobrás, que agora, com novo modelo de gestão, tenta se recompor financeiramente e iniciar a recuperação de sua imagem perante os investidores. Sem equilíbrio financeiro, de nada adianta anunciar programas mirabolantes de expansão de sua capacidade operacional.

O Plano Diretor de Negócios e Gestão para o período de 2017 a 2021 aprovado pelo Conselho de Administração da Eletrobrás prevê investimentos de R$ 35,8 bilhões para o período, o que significa redução de 29% em relação ao total de R$ 50,3 bilhões em investimentos previsto no plano anterior, para o período 2015-2019. Grande parte desse montante será destinada à conclusão de programas de geração e de transmissão já contratados. O valor previsto para o quinquênio 2017-2021 sugere que a estatal terá participação tímida em novos investimentos no setor elétrico no período.

O principal objetivo da empresa nos próximos anos será reduzir sua dívida. A relação entre dívida líquida e capacidade de geração de recursos (resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização, conhecido como Ebtida) estava em 8,7 no fim de setembro. O objetivo é reduzi-la para 4 até o início de 2019.

Para alcançá-lo, além de cortar os investimentos, a estatal pretende transferir para grupos privados o controle de distribuidoras de energia que controla, vender participações minoritárias e obter ganhos de eficiência. O programa de privatizações deve começar com a venda da Celg Distribuição (Celg D), que pode render R$ 913 milhões.

No campo operacional, os ganhos podem ser expressivos. Além do desastre financeiro que o programa para o setor elétrico do governo Dilma impôs à empresa, a administração petista utilizou a Eletrobrás e outras estatais para seus objetivos político-partidários, quando não para rechear cofres dos partidos aliados do governo e bolsos de funcionários e políticos.

“Desde 2012 até hoje, enfrentamos um processo de baixa eficiência operacional”, disse o presidente da empresa, Wilson Ferreira Jr., ao comentar o novo plano de negócios. Os custos operacionais de geração e transmissão da Eletrobrás são maiores que os das empresas privadas similares, nacionais e estrangeiras.

A empresa pretende também promover uma reestruturação administrativa, com a redução do número de funções gratificadas de assistentes, assessores e gerentes. Está em negociações com o governo a execução de um plano de aposentadoria incentivada, para o qual já foram identificados 4.937 funcionários em condições de utilizá-lo.

Embora de impacto não tangível, “a nova cultura empresarial focada em compliance” da Eletrobrás – como ela a define – significará uma mudança radical em relação aos métodos de gestão da era lulopetista. A empresa reconhece que, na administração anterior, não havia um ambiente de controle efetivo sobre suas práticas administrativas, contábeis, de investimentos em outras empresas, de prevenção e combate à corrupção e de preservação dos valores éticos previstos em seus códigos e estatutos.

Por isso, seu Programa de Negócios e Gestão tem como foco, além da disciplina financeira e a busca da excelência operacional, a governança e o alinhamento de suas práticas aos padrões reconhecidos internacionalmente. Se esse objetivo for cumprido, práticas danosas e até criminosas que vão sendo identificadas em gestões anteriores não se repetirão, embora suas consequências ainda persistam e imponham dificuldades à empresa.

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