A recuperação desigual

A economia global deve crescer 4,5% este ano, mas a recuperação é desequilibrada e o mundo pode estar lançando as sementes da próxima crise, advertiu o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, num discurso na terça-feira em Cingapura. Dois dias antes, em Davos, na Suíça, o Fórum Econômico Mundial havia encerrado sua grande reunião anual com uma nota de prudente otimismo. Há muita arrumação pela frente, mas o trabalho começou e o motor da economia parece ter pegado de novo, segundo avaliação apresentada no encontro por ministros de vários países. Em seu pronunciamento em Cingapura, Strauss-Kahn preferiu chamar a atenção para os perigos à frente e para a necessidade urgente de correção de rumos.

, O Estado de S.Paulo

07 Fevereiro 2011 | 00h00

Há pouco mais de uma semana o FMI divulgou um panorama atualizado da economia global, mais otimista que o publicado em outubro. Elevaram-se as previsões de crescimento da maior parte dos países. Pode parecer estranha, portanto, a decisão de Strauss-Kahn de dar relevo aos aspectos mais sombrios do cenário. Mas ele tem razões para insistir em suas advertências.

Em relação ao quadro mais amplo, o recado é claro e indiscutível: a recuperação está ocorrendo pelo caminho errado. O padrão de crescimento econômico nos principais países deficitários e superavitários continua muito parecido com o de antes da crise. Houve uma pequena mudança de ênfase, é preciso reconhecer, mas a expansão chinesa continua dependendo principalmente das exportações e dos investimentos tradicionalmente voltados para o comércio exterior. No começo da crise o governo adotou estímulos ao mercado interno e o superávit comercial diminuiu, mas não chegou a ocorrer uma efetiva alteração de rumo. A subvalorização do câmbio foi mantida e o yuan continuou, como desde o início da crise, acompanhando o dólar.

Os Estados Unidos são, como se sabe, o principal país deficitário. Lá, o ajuste deveria ter ido na direção contrária da correção chinesa, com redução do desequilíbrio fiscal, menor ênfase no mercado interno e maior esforço exportador. Houve alguma atenção a esses elementos e o comércio até se beneficiou da depreciação do dólar, mas os principais fatores de crescimento continuaram sendo os de antes da crise.

De certa forma, o discurso de Strauss-Kahn foi o balanço de um fracasso político. A mudança de estratégia dos Estados Unidos e da China foi combinada primeiramente no Grupo dos 20 (G-20) e depois na reunião do FMI em outubro de 2008, em Istambul. Foi de fato proposta uma redistribuição de papéis até mais ampla. Parte da tarefa de reequilíbrio global deveria caber a outros superavitários, como Alemanha e Brasil. A Alemanha não se mexeu. O Brasil pagou uma parte desproporcional da conta, porque seu saldo comercial foi amplamente corroído tanto pelo crescimento do consumo como pela valorização do real. Os dois fatores impulsionaram as importações e dificultaram as exportações.

Segundo Strauss-Kahn, a política monetária frouxa dos Estados Unidos é uma resposta adequada à crise e teve um efeito limitado nos fluxos de capitais para os emergentes. A experiência brasileira conta uma história diferente, e muito mais preocupante, sobre o ingresso de capitais e seu efeito de valorização do real.

Excluído esse detalhe, as preocupações expostas por Strauss-Kahn correspondem amplamente às ansiedades brasileiras. O Brasil enfrentaria menos problemas no setor externo se os Estados Unidos deixassem de inundar o mundo com dólares, se a China valorizasse o yuan e se as economias desenvolvidas conseguissem reduzir o desemprego, ainda muito alto dos dois lados do Atlântico Norte.

Isso facilitaria um crescimento mais rápido e mais firme das economias americana e europeia, além de impulsionar o comércio. Até agora o Brasil contribuiu com sua reativação - e especialmente com a boa disposição de seus consumidores - para a dinamização de outros países. Num cenário mais equilibrado, o País poderia receber uma fatia mais justa dos benefícios da recuperação global.

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