A reeleição faz a reforma

Assim como não há chuva que não molhe, não há candidato que não tenha o seu comitê eleitoral - desde a meia dúzia de gatos-pingados, ajudando o amigo de olho numa cadeira de vereador em Cabrobó dos Anzóis, às formidáveis estruturas das campanhas presidenciais, com os melhores quadros que as afinidades ou o dinheiro podem comprar. Nem o mais conhecido dos políticos nem a mais popular das chamadas personalidades da sociedade do entretenimento podem dispensar um aparato que lhes assegure o voto em escala compatível com as suas ambições.

O Estado de S.Paulo

02 Fevereiro 2014 | 02h07

Nada mais natural, portanto, que a presidente Dilma Rousseff, não obstante os recursos de poder inerentes ao mandato - como o acesso privilegiado à mídia de massa -, dependa, também ela, de uma estrutura que em última análise faça com que se confirme, na hora da verdade, o favoritismo que lhe atribuem as pesquisas de opinião. O que não tem nada de natural e tudo de indecente, porém, é a ostensiva transformação do governo em comitê de apoio ao comitê eleitoral propriamente dito da presidente. Pior ainda: a sujeição daquele a este, para maximizar, como diria ela, as suas chances de vitória já no primeiro turno.

O nome oficial dessa apropriação patrimonialista - uma das tantas enormidades que o PT aprendeu com o que há de mais retrógrado na política nacional - é reforma ministerial. Ela decorre de um fato da vida: por força de lei, ministros que pretendam se candidatar a cargos eletivos devem deixar os seus postos a até seis meses da eleição. Seria, em tese, uma oportunidade para a sua chefe substituí-los por nomes capazes, quem sabe, de melhorar o pífio desempenho administrativo do Executivo. Ou, com mais modéstia, promover os servidores de carreira que conhecem a máquina por dentro, apenas para mantê-la rodando.

Com uma aparente exceção - a ida do secretário executivo da pasta da Educação, José Henrique Paim, para o lugar do ministro Aloizio Mercadante -, não é uma coisa nem outra. A começar do próprio Mercadante, transferido para a Casa Civil, com a saída da ministra Gleisi Hoffmann, que deverá disputar o governo do Paraná, as mudanças obedecem exclusivamente ao projeto reeleitoral de Dilma. Na Casa Civil, o ex-senador, muito além de coordenar as ações administrativas do Planalto, terá a incumbência de manter as recalcitrantes lideranças dos partidos governistas na coligação eleitoral. Missão talvez grande demais para a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, incumbida do meio-campo com a base aliada.

Assim, com o salário e as mordomias pagas pelo contribuinte, ele integrará - ao lado de Lula; do presidente do PT, Rui Falcão; do ex-ministro da Comunicação Franklin Martins; e do marqueteiro João Santana - o politburo do comitê Dilma-14. Já o novo ministro da Saúde, ex-secretário do setor em São Bernardo do Campo, Arthur Chioro, foi escolhido para pôr a pasta a serviço não só da presidente, mas, sobretudo, do antecessor Alexandre Padilha, candidato ao governo paulista. Para o PT essa disputa é quase tão crucial quanto a da Presidência. Na campanha, quando Lula não estiver desfilando com a afilhada, estará cabalando votos para o "poste" da atual temporada.

Das mudanças já anunciadas no Gabinete, nenhuma deixa tão escancarada a decisão de degradá-lo em Ministério da Reeleição como a troca, na Secretaria de Comunicação Social (Secom), da titular Helena Chagas pelo também jornalista Thomas Traumann, porta-voz de Dilma desde 2012 e chefe do chamado "gabinete digital" do Planalto, responsável pelo blog da presidente e suas manifestações no Twitter e Facebook. Ele caiu nas boas graças de Dilma quando acionou as redes sociais para o governo responder às jornadas de junho. À parte seus presumíveis méritos, ele foi escolhido para subordinar a comunicação da Presidência às exigências da campanha.

Quem o indicou, sintomaticamente, foi o já citado Franklin Martins. Ministro de Estado, Traumann deverá, portanto, abastecer a mídia com as versões mais convenientes para a vitória de Dilma. Sem esquecer de que a Secom administra a publicidade do Executivo e das estatais, ao custo aproximado de R$ 1,9 bilhão.

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