A reforma adiada

São, para dizer o mínimo, nebulosas as razões citadas pelas autoridades brasileiras para encamparem a necessidade de uma reforma ortográfica da língua escrita e impressa no País com o objetivo declarado de uniformizar o vernáculo nos países lusófonos. Como se as diferenças entre o que se fala no Brasil, em Portugal e nas antigas colônias lusas representassem uma desvantagem comercial e cultural. Trata-se de uma falácia difícil de sustentar: o inglês não deixou de realizar o que o criador do esperanto não conseguiu - tornar-se uma espécie de língua universal - por causa das notórias e notáveis diferenças entre o que se fala em Nova York, Londres e Sidney. O mesmo se verifica em relação ao castelhano, que ganhou importância no planeta globalizado sem eliminar as óbvias distinções entre o que se fala e se escreve em Buenos Aires, Madri, Caracas e Cidade do México. Tidos como os mais exigentes cultores de seu idioma, os franceses não se perturbam com as formas distintas como se escreve em Paris, Bruxelas, Genebra e Caiena. A "última flor do Lácio" não demanda unificação, seja por ter um universo mais reduzido do que as línguas citadas, seja pelo abismo que separa os mercados brasileiro, com quase 200 milhões de habitantes segundo o censo do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística de 2010, e o lusitano, com menos de 11 milhões em julho de 2012.

O Estado de S.Paulo

05 Janeiro 2013 | 14h42

A unificação se mostrou mais difícil de se compreender depois que os portugueses fincaram pé em várias de suas idiossincrasias idiomáticas tornando ridículas as pretensões brasileiras de aproximar duas grafias que não se tornaram iguais. Mas, desde a adoção da alteração da forma de escrever de 0,5% do universo vocabular em que se expressaram Luís de Camões, estudado em nossas escolas, e Machado de Assis, admirado além-mar, comunicadores, editores, professores, escrivães e outros usuários da língua passaram a adotar os novos padrões. Mesmo sem ninguém ter auferido algum tipo de vantagem, à exceção das editoras com dicionários e vocabulários ortográficos e obras didáticas em seus catálogos e pontos de venda, que lucraram um bom dinheiro substituindo seus produtos com velha grafia pelos modificados - ainda que em pequena escala - pela nova.

O sucesso da reforma no Brasil foi inversamente proporcional ao tamanho das mudanças propostas - a supressão de hífen e trema, o corte de acentos diferenciais ou em palavras em que os fonemas divergem -, mas não mobilizou os praticantes originais da língua, que, se não lhe voltaram as costas, deram de ombros. Pode-se argumentar que a adoção, sem entusiasmo, mas com simpatia, das alterações previstas pelos gramáticos da Academia Brasileira de Letras, mostra que eram necessárias. Caso contrário, não seriam tão facilmente absorvidas em noticiários, anúncios, documentos oficiais, na literatura e nas aulas.

Se isso é verdadeiro, torna-se ainda mais difícil de entender o decreto assinado pela presidente Dilma Rousseff e adotado desde o primeiro dia do ano suspendendo a obrigatoriedade do uso das modificações por três anos, passando a data da sua aplicação obrigatória para 1.º de janeiro de 2016. A presidente valeu-se de parecer do Itamaraty para fazer um aceno de boa vontade aos lusos.

Ocorre que a reverência aos pais da língua não será feita a custo zero. Pois a decisão presidencial só tem sentido por permitir a reabertura das discussões de novos passos a serem dados na direção dos cânones de Lisboa. E isso, além de ocupar tempo ocioso de diplomatas e dar notoriedade a gramáticos pouco reconhecidos, poderá levar à reedição de dicionários e compêndios escolares. Ou seja, as famílias terão de comprar novos livros para preencher as exigências curriculares das escolas e os profissionais que lidam com a língua voltarão às livrarias para aquecer o mercado livreiro com a previsão de gastos oficiais vultosos na aquisição de produtos impressos. Tudo isso à custa do perigo de sepultar o êxito da reforma que deveria ter sido sacramentada no dia 1.º passado e dificultar o ensino da língua, cuja complicação já é por todos reconhecida.

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